Não foi simples atravessar as 700 páginas desse ensaio, e ele me tocou por motivos alheios à sua força. O livro parece ter sido escrito em resposta à crise econômica de 2008 e em defesa das táticas políticas de ocupação de espaços públicos que se multiplicaram desde então. Mas não é sobre isso: revisitar a pré-história dos povos humanos, percorrendo uma bibliografia ampla, específica e atualizada na arqueologia desses povos, é uma oportunidade de argumentar em prol da diversidade política da espécie e, mais do que isso, das incontáveis tentativas de produção de relações sociais igualitárias ao longo dessa trajetória.
O que me tocou, no entanto, foi o mundo arqueológico, que eu não conhecia. Culturas como a de Chavín de Huántar, possível ancestral ou, então, resultado do xamanismo amazônico nos andes peruanos, e contemporânea, na cronologia planetária, dos gregos antigos; ou, ainda, as relações variadas e complexas entre heroísmo, burocracia e encantamento, como três formas básicas de produção de poder social, para compreender os povos humanos. Isso tudo mobilizado por um universo de referências que me fez ir atrás de poemas e cantos sumérios e acádios, chineses e japoneses, incas e maias, egípcios e gregos, para procurar relacionar com as passagens do livro.
A força do ensaio de David Graeber e David Wengrow, porém, está na denúncia da ideologia capitalista com base em saberes antropológicos, referenciados na arqueologia, e que começaram a ser elaborados na Europa a partir dos discursos ameríndios relatados ou traduzidos. Graeber e Wengrow parecem defender mesmo que o Iluminismo é uma reação europeia à crítica ameríndia, e que a Revolução Francesa é uma espécie de “indigenização” da sociedade francesa: se eles podem viver de outra maneira, nós também podemos distribuir poderes…
De qualquer maneira, ler grandes livros, longos e aprofundados, é uma experiência significativa para mim, mesmo que eu leve, como dessa vez, cerca de um mês, entre idas e vindas, para atravessar uma obra com estilo estranho ao que costumo frequentar.
