Versão do poema exposta na escola.

O poema de L. N., estudante da turma 904, foi composto em 2021, depois de uma reunião de orientação na Oficina Literária Ato Zero. “Poeta ou poetisa?” é um dos vários poemas que L. vem compondo nos últimos anos e, desde que ingressou na escola, em 2019, vem apresentando à comunidade. Seu trabalho, desenvolvido durante a adolescência, investiga lugares de fala afirmativos da vida, e a poesia mesma aparece como um, entre outros, lugar possível para o drama do reconhecimento social.

Por isso, seus poemas, a exemplo de “Poeta ou poetisa?”, interrogam as possibilidades da poeta, pois o gesto da publicação aparece como distinto da necessidade de escrever. Qual a necessidade de publicar? Em livro? Vender um poema? Ou, então, postar? A resposta, nos poemas de L., não parece simples, e a exposição de “Poeta ou poetisa?” no espaço escolar experimenta uma saída. De qualquer maneira, o poema chega até estudantes e professores, adolescentes e adultos, funcionários e familiares da escola como produto da artesania escolar, composto com papelão reciclado, cartolina colorida e tinta acrílica.

O poema, no projeto de L., acontece como surpresa para quem frequenta a escola. Pendurado numa parede, a princípio as palavras parecem explodir desordenadamente de um centro — a pergunta, a questão do nome, o nome do trabalho: poeta ou poetisa? A vertigem da questão dura pouco, o olhar do leitor organiza linha a linha um texto que atravessa a pergunta e sugere, como resposta, uma metamorfose. A poeta cresce em poetisa e o papel do poema embrulha matéria muito variada, performando o encontro entre a forma e a vida, o texto e o corpo, o verso e a voz.

A obra de L. N., apresentada à escola, convida aqueles que estiverem diante dela ao trabalho de perguntar à linguagem como crescer. A poeta mulher, poeta ou poetisa, a poeta adolescente, estudante, suburbana, a poeta muitas coisas propõe o poema pendurado, pintado, colorido, o poema, também ele, muitas coisas. O poema muitas coisas, ampliado, expandido, performado, é, para mim, como professor e leitor de L., a lição principal da sua experiência com poesia, que levo para o trabalho comum com os poemas em sala de aula.

Versão do poema exposta na escola.

Poeta ou poetisa?

Sou poeta crescendo,
não sou poeta crescida
Quem foi que cresceu em poesia
a ponto de não mais caber nela?

Sou poeta em construção,
poeta pensante
Poeta ou poetisa?
Discussão acadêmica demais
pra mim que sou leiga com as palavras

A gramática que me perdoe,
mas todos os errinhos de português
quando bem colocados,
tem sua graça
e seu cheiro doce

Talvez sabor pipoca
explosão,
química,
metamorfose,
expansão

Isso é ser poeta em construção
juntar filosofia e pipoca
em contexto reflexivo
inacabado
Ausentar pontuação
e ser fonte de análise
para os analíticos
de plantão

Poeta aprendendo
a magia da organização de letras
que faz atrair
e atribuir significado
dados
e mudados,
que se renovam e envelhecem
quando vem poeta pra questionar

É, acho que poeta crescendo é isso;
é poeta descobrindo
as várias formas
e sombras
que a arte
da poesia
causa
nas várias formas de existência
e ousar
ao embrulhar tudo
em papel

L. N., 15 anos
Estudante do Ensino Fundamental

A exposição de “Poeta ou poetisa?” é resultado do projeto de iniciação artística jr. Oficina Literária Ato Zero, apoiado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura (PROPGPEC). Também colaboraram para a execução do projeto o Departamento de Português, a Biblioteca Hélio Fontes, a Equipe de Português e as Direções Geral e Pedagógica do Campus. A Oficina Literária Ato Zero integra o Laboratório de Autoria e Imaginação Literária (Lábia), fundado em 2022 em parceria com a professora Juliana Berlim.