Além das 15 questões da prova de Linguagens do Enem 2022 que estavam baseadas em textos literários, as outras questões que abordam as Habilidades referentes à disciplina escolar de Língua Portuguesa estão principalmente baseadas em três grupos de texto: cartazes publicitários (cinco questões), notícias ou reportagens (quatro questões) e textos de opinião (quatro questões).
A leitura desses textos é avaliada de duas maneiras: ou se convocam teorias da linguagem, como as funções da linguagem, os tipos e gêneros textuais, e a realidade linguística do Brasil; ou, então, se considera a argumentação nesses textos.
A Competência de área 6 da Matriz de Referência Enem reúne os estudos iniciais de língua portuguesa no ensino médio, tradicionalmente localizados na primeira série. Trata-se da abordagem da teoria dos gêneros e tipos textuais, concebida inicialmente por Mikhail Bakhtin; da teoria das funções da linguagem, de acordo com Roman Jakobson; e da realidade linguística brasileira, que envolve a perspectiva multicultural do português brasileiro, em diálogo com línguas indígenas e afro-brasileiras, e a diversidade linguística do país, o que contempla, além das línguas indígenas e afro-brasileiras, as línguas de imigração e Libras, especialmente.
Assim, a cada ano encontramos questões que demandam identificação de funções da linguagem, de acordo com a teoria de Roman Jakobson, como foi o caso da Questão 26 da prova Azul, que solicitou a identificação de um verso de uma canção de Chico Buarque (“Assentamento”) que manifestasse função emotiva. Também comparecem anualmente as questões acerca da realidade linguística, como a Questão 28, que abordou o risco de extinção de línguas indígenas e o trabalho de recuperação e preservação dessas línguas.
No entanto, predominam nas questões das teorias da linguagem aquelas que abordam a tipologia ou o gênero dos textos. Foram cinco questões que avaliaram identificação de gêneros textuais, como resenha e inventário, ou a qualidade da sequência textual, principalmente a distinção entre informação e argumentação. Considerando as habilidades da Matriz de Referência, a habilidade mais requerida é a análise dos textos literários, seguida pela análise de tipos ou gêneros dos textos.
A Competência de área 7, dedicada a avaliar a argumentação textual, avalia as habilidades de leitura dos argumentos e das estratégias argumentativas do texto, além da comparação dos argumentos entre textos e da relação entre imagem e texto verbal em textos mistos.
Na prova de 2022, a habilidade referente à comparação entre textos se destacou, pois foi objeto de três questões, especialmente a questão que, entre meus alunos, foi considerada a mais inusitada. A questão avalia a relação argumentativa entre uma campanha publicitária de adoção de animais e a crônica sobre a vida de um cão comunitário. Assim, seria preciso inferir uma contradição entre o Texto II e o Texto I, caso se confirme o gabarito no item A.
Em relação aos conhecimentos gramaticais e suas habilidades correspondentes, que incluem a teoria da variação linguística, e usos de variedades e da norma-padrão em contexto, poderia dizer que, no Enem 2022, apenas duas questões se dedicaram diretamente ao tema, o qual, no entanto, compareceu como saber necessário para a resolução de pelo menos outras três questões, entre as 45 da prova de Linguagens.
Assim, o objeto da Questão 12, baseada no fragmento de uma crônica de Luis Fernando Verissimo, é a inadequação do uso da norma-padrão por um personagem do texto. Era preciso reconhecer que o contexto de comunicação consiste num fator determinante para o uso da norma-padrão, que, por isso, não deve ser usada em qualquer situação.
Outra questão pressupôs conhecimento da noção de adequação linguística, a Questão 24. Seu objeto foi a intencionalidade do texto ao empregar um exemplo determinado, por isso eu diria que se trata de uma questão que tem como objeto a argumentação. Porém, o tema do artigo de opinião que baseia a questão era a adequação linguística, e o exemplo abordado pelo enunciado da questão serve à defesa da “adequação da linguagem à situação de comunicação”, conforme enuncia o item que provavelmente responde (o gabarito oficial ainda não foi divulgado).
Outra questão envolveu a comparação entre fragmentos do professor José Luiz Fiorin e de um artigo de opinião, a respeito do sistema lexical. Ao abordar o racismo decantado em itens lexicais do português, a Questão 14 avaliou diretamente a relação argumentativa entre dois textos, tematizando, porém, as implicações étnico-raciais do léxico da língua.
Por fim, uma questão sobre literatura demandou conhecimento gramatical. Ao propor a análise do estilo do romance O fim (2013), de Fernanda Torres, a Questão 18 entendeu que o ritmo do texto está marcado pelo revezamento entre sentenças nominais e sentenças verbais.
Assim, poderia afirmar que a prova de Linguagens do Enem não tem como objeto as regras gramaticais da norma-padrão do português brasileiro, privilegiando, em vez disso, a compreensão e a interpretação textual, especialmente em textos argumentativos e literários. O conhecimento gramatical é avaliado em perspectiva transversal às questões, e cabe à prova de Redação do Enem a avaliação direta do uso das regras gramaticais de acordo com a norma culta brasileira e o estilo formal de comunicação.
