A escrita nasce desse problema: como narrar um pai supostamente antiliterário. O estilo de Ernaux associa Bourdieu a Lacan, escreve para contornar a ferida entre pai e filha, que ocuparam lugares sociais e, portanto, produziram linguagens distintas. Como escrever o pai que não foi Proust, incompatível? A linguagem dói, então foi preciso refazer a literatura. Convocar Jean Genet, ironizar O pai Goriot, de Balzac, e escrever o seu próprio Contra Proust. As madeleines de Ernaux são opacas, não brilham na memória, que se escava com pazinha. E, no entanto, é uma homenagem: como poderia escrever Proust se tivesse nascido filha de um operário.
O lugar do pai não está ali desde sempre, mas foi produzido pelo pai ao longo de sua história, em diferença a outros lugares da família do pai, da cidade do pai. Ao trazê-lo para o livro, Ernaux olha o pai sob a visada dos seus lugares, dele e dela, e propõe à literatura a procura de outro lugar em que pai e filha possam ler um ao outro. O lugar (2021) é um tombeau. Um livro pode ser um lugar onde o pai sobrevive, perdura. Nesse caso, a memória que a narradora apresenta do pai é matéria de análise, com o rigor de quem, escrevendo-a, sabe que a anatomia da memória não repara a perda. Assim, como leitor, estive diante de um lugar, não do pai da narradora.
