Lu Menezes publica muitos de seus poemas com a mancha gráfica centralizada na página, como também fazem outros poetas, a exemplo de Antonio Cicero. Suponho que, entre outros fatores, a composição do poema em computador pessoal adquirido inicialmente nos anos 1990, quando tanto Lu Menezes quanto Antonio Cicero disseminam o procedimento nos seus poemas, tenha sido um motivos para adotarem a apresentação textual centralizada. O resultado é, entre outros, a sugestão de caligramas, ou seja, de manchas gráficas cujos desenhos figuram objetos ou seres de contorno simétrico.
É o caso, a meu ver, da “flor exemplar” (título da primeira versão do poema de Lu Menezes) que a aluna-poeta cria, em ôntica ilusão de ótica. O verso que nomeia a imagem imaginada durante a aula (“o nicho roxo no ar”) está rodeado por estrofes cujos desenhos insinuam a gradação de ondas de energia. A flor exemplar, criada a partir do exemplo docente da flor, altera a organização do discurso tanto da primeira estrofe, prosaico, quanto do professor, desértico, e floresce à espreita. A flor epífita (ou, na linguagem da aluna, “epifenomênica”) é o poema da cor da flor, poema, como plantas, oportunista que nasce enraizado na aula de Filosofia, ou melhor, colore a aula por desvio de atenção.
Parece, então, que, no poema, a poesia investiga os limites da linguagem pedagógica, tornando o exemplo, exemplar e, por isso, reflorestando o deserto, imaginando o ser das coisas, jogando com o discurso lógico. O humor da cena da aluna distraída, que desenha na imaginação e no papel a flor exemplificada pelo professor, sugere que, em perspectiva poética, a exigência de atenção à aula inclui a possibilidade da distração. A poeta, distraidamente atenta à matéria, anota a lição, cita o professor, imagina e desenha, continuando, com a flor, a reflexão, e se desviando, com humor, da estrita finalidade da aula de Filosofia.
O poema foi reproduzido a partir da página 205 da edição de Labor de sondar [1977-2022], reunião dos poemas de Lu Menezes publicada pela coleção Círculo de Poemas.
