Escolas têm sido curiosos lugares de produção e significação da literatura. Além da representação que as obras podem fazer do espaço ou da memória escolar, escolas são a principal oportunidade de democratização do texto literário no Brasil, já que se trata de instituições de letramento de acesso gratuito e frequentação compulsória, e disseminadas pelo território nacional. Entre inúmeros acontecimentos que a vida literária proporciona à escola, a presença nela de ficcionistas e poetas é um que às vezes reúne vida escolar e obra literária. Quando isso ocorre, quando a escola visitada atua como força na produção de uma obra, então fica mais evidente que as escolas podem ser vistas como instituições literárias, espaços de leitura e produção de literatura, de formação para a vida cultural, inclusive literária. Em 2019, ficou conhecida uma anedota contada por Sérgio Vaz, poeta de São Paulo, ao visitar uma unidade da Fundação Casa, espaço educativo para jovens infratores.

A recepção que a poesia teve entre os jovens decorreu da sua nomeação pelo poeta: isso é poesia, e isso vocês conhecem e gostam. Estabelecer uma relação de continuidade entre a canção e o poema é uma estratégia de identificação e, portanto, de inclusão de ouvintes ou leitores no campo da literatura, embora se deva considerar que a visita do poeta, nomeado como poeta, por si só representa, na escola, uma perturbação na rotina que abre espaço para novas nomeações. Em trabalho recente, Nicolas Behr propôs uma continuidade entre a recusa de um estudante e a escrita do poema, ao se deparar com alguém que, diante da pergunta sobre poesia, rechaçou:

Conta o poeta que ele estava batendo papo em uma escola quando a professora saiu da sala e ele perguntou aos alunos:

– O que é poesia pra vocês?

Um, rapidamente, respondeu:
– Poesia é um saco!

Texto na contracapa do livro Poesia é um saco (2021), de Nicolas Behr.

Nasce, da resposta, uma série de 47 poemas iniciados com variações do verso “poesia é um saco”. A transformação da resposta resistente do estudante num verso gerador de poesia configura um procedimento estético e pedagógico. Como procedimento pedagógico, o livro Poesia é um saco (2021), de Nicolas Behr, nomeia poesia pela declaração de gosto do estudante, que, entre a recusa e a metáfora, criou a chance dos poemas. O primeiro poema da série sugere, como a princípio qualquer outro, o valor do livro em relação ao encontro entre poeta e estudante na escola.

Poema de abertura do livro Poesia é um saco (2021), de Nicolas Behr.

Uma primeira resposta ensaiada pelo poeta, entre as quase 50 outras respostas presentes no livro, além de considerar por vários lados a palavra “saco” usada pelo estudante, indica o poema como lugar paradoxal de ausência e presença, afirmação e recusa, memória e esquecimento. Como se o poema respondesse ao estudante algo do tipo: “olha o que você está perdendo” (ao que o estudante ainda assim poderia retorquir: “tudo bem”), mas também como se o poema incluísse a possibilidade afetiva enunciada pelo estudante e dissesse: “sim, você está certo, a poesia é justamente um saco”.

Poeta na sala de aula escolar não divide turmas entre quem gosta, quem não gosta de poesia, mas torna a sala de aula um espaço em que a poesia pode acontecer, seja pela leitura ou pela escrita. De objeto de estudo a acontecimento estético, o poema na sala de aula, segundo a lição de Nicolas Behr, irrompe nas fronteiras do letramento, quando alguma pessoa letrada enuncia contra a literatura. Nesse caso, lemos um poeta que, de seu lugar, lidou com o lugar de professores de literatura na educação básica.