Poema/processo de Moacy Cirne, com as cores invertidas, publicado em Um panfleto para Godard (1986)

Num texto como esse, colagem de rasgos ou recortes de jornalismo industrial em tempos pré-digitais, o enunciado legível, a ser montado pelo olho do leitor, não consiste exatamente numa palavra de ordem: “Não pare na pista dos sonhos perdidos”. O teor imperativo, num livro que se entende como “panfleto”, em poemas que se entendem como “poemafletos”, emoldura restos de notícias de guerra mediadas por ONU, Nações Unidas, Genebra, termos-chave que aparecem nos papelitos que, como numa explosão, espocam do centro visual do poema. O refrão visual do texto legenda conflitos geopolíticos que explodem no labirinto da informação, uma série de signos carregados de significação metafórica, organização didática que aparece à segunda leitura, caso um leitor decida indagar o caco-texto, texto a princípio agressivo, repulsivo. A geopolítica e a informação, dois temas caros ao poema/processo, tática poético-política de combate às mitologias, cerceiam a imaginação, pois, como mitologias, organizam o território possível da revolta e da ação políticas. A página que apresenta o processo do poema organiza, então, um diagrama de afetos do poeta diante do mundo, uma pista para o sonho sob a perspectiva do consumidor de informações. A frase montada pelo leitor, fechando o circuito do processo explosivo do texto, está dramaticamente enunciada por alguém que, inflamado pela informação, vislumbra os limites do mundo informado. O traço imperativo da frase, aliás um verso simetricamente ritmado (“não PAre na PISta dos SOnhos perDIdos”), é uma visão do poeta.

Embora tão pouco conhecido, o movimento do poema/processo discute, entre outros pontos, os efeitos sensíveis da cultura da informação, tema crucial no debate brasileiro contemporâneo. Esse é um entre tantos outros motivos do interesse da reedição de Um panfleto para Godard (1986), de Moacy Cirne, pela Muganga Edições, tocada em Natal, RN, por Ayrton Alves Badriah e Victor H. Azevedo.