Em Alma corsária (2022), os poemas que observam, lamentam ou celebram o corpo e a passagem do tempo no corpo parecem encarar os afetos mais radicais do livro, escrito ao longo de mais de uma década. No entanto, e talvez mesmo por isso, os exercícios de observação da paisagem natural (ajardinada ou carioca) ensaiam uma riqueza cotidiana que encontra, a meu ver, no poema “Enquanto você dorme” expressão dramática em relação com o gaio saber de quem, dormindo, participa da realidade. Essa espécie de integração da pessoa com a paisagem mediada pelo poema extrapola a expressão mesma do poema, que se organiza como paisagem verbal efêmera, vislumbre e deslumbre daquele momento guardado em palavras que, apesar disso, não guardam o momento. Assim é que um poema como “Casulo”, em repetição frondosa de “folhas” no final dos versos decassílabos ou quase, se aproxima de seu fim afinando os versos, mais estreitos como, em geral, um caule em relação à folhagem, quando a poeta se deita na madeira dura de um banco. O balbucio aliterativo das folhas, que “arfam”, consiste na duração do “casulo”, lugar de metamorfose onde o sujeito, diferindo-se, se esquece.
CASULO
ROQUETTE-PINTO, Cláudia. Alma corsária. São Paulo: Editora 34, 2022. p. 39.
Debaixo de uma catedral de folhas,
sem saber nem precisar quem a erguera,
sob a anêmona do vento nas folhas
e o que respira agora pela primeira
vez, eu me deito, contemplando as folhas,
a espinha reta de encontro à madeira
dura e encerada de um banco.
Manhã alta.
Em meio a tantas folhas
o coração, livre de escolhas,
a um só tempo cheio e nulo.
Nada me falta,
enquanto arfam as folhas.
Agora e neste aqui,
pleno casulo.
