
Em Assim na terra como embaixo da terra (2017), de Ana Paula Maia, quando, no Capítulo 5, o diretor da Colônia Penal estabelece as regras da caçada, sabemos que ele usa uma das armas de sua coleção, um rifle CZ.22 de fabricação tchecoslovaca.
Durante as aulas para estudantes do ensino médio, parei nesse signo. Procurei considerar a relevância do detalhe de fabricação, que de qualquer maneira poderia ser desprezada pelos leitores. Uma arma de décadas, fabricada numa república da União Soviética que existiu até 1992, guardada no armário com outras armas que herdou do pai.
O rifle de caça usado por Melquíades para abater os detentos da Colônia Penal que dirige ganha, com essa atenção, ares de personagem ou, pelo menos, se torna um objeto da narrativa significativo na construção da atmosfera ficcional.
Numa das aulas, uma estudante observou que Ana Paula Maia deve ter se divertido na pesquisa para escrever o livro. Noutra aula, alguém decidiu buscar na internet informações detalhadas sobre o armamento. No Rio de Janeiro, é comum avistar pessoas armadas com fuzis ou rifles, sejam de grupos militares ou paramilitares, além de esse imaginário estar presente na cultura gamer, relevante para adolescentes.
Perceber, como leitor leigo, a dimensão de trabalho de pesquisa do escritor de literatura, ao mesmo tempo em que se cuida para legitimar práticas de leitura com atenção flutuante ou desatenção calculada (por prazer ou dadas as condições de vida e atenção da população em geral), é um dos objetivos do trabalho como professor de literatura no ensino médio.
A formação atenta à literatura como prática social tem vocação para disseminar de sentidos um texto literário, em diálogo com as condições de vida dos leitores, que desenvolvem autonomia no cultivo do gosto literário e reincidência na prática de leitura de ficção longa.