Abertura do romance de Felinto na edição de 2021.

Recentemente, elaborei para estudantes do ensino médio uma questão de múltipla escolha sobre textos literários narrativos baseada no modelo da prova de Linguagens do Enem.

Nesta prova, é comum a pergunta acerca da “expressividade” do estilo narrativo, considerando o foco da cena sobre personagens ou paisagem, ou então a perspectiva do narrador.

Por isso, selecionei um parágrafo do excelente As mulheres de Tijucopapo (1982), de Marilene Felinto, e propus uma questão relacionada com um tema de literatura contemporânea recalcado na prova do Enem desde 2018: a representação das contradições políticas no período de ditadura civil-militar.

O tema era recorrente, mas deixou de aparecer tanto na prova de Linguagens quanto na prova de Ciências Humanas a partir do atual mandato da presidência.

Cabe, por isso, às escolas e a professores a abordagem do tema em sala de aula, de acordo com os documentos curriculares, como marca de qualidade educacional e parte do trabalho de militância para que uma prova influente nas escolas garanta abordagem da repressão cultural em regime de exceção recente no país.

Era 1964 e naquele ano, um dia tal, não posso me esquecer que estava com Ruth na cidade, tomando um guaraná inteiro, primeira vez que eu tomava um guaraná inteiro, Ruth comprara, pois que naquele solão de março, um guaraná gelado pra mim, outro pra ela, quando súbito estouraria ali, no meio de nós, a Revolução. Larguei o guaraná em metade no balcão do bar, Ruth me puxando espavorida pela mão, lojas fechando, soldado por todo lado, cachorros, sirenes, bombas. E não havia mais ônibus, e Ruth quase gritava desesperada que precisávamos ir, de qualquer jeito, que aquilo era um perigo. “Mas o que foi?” eu perguntei. “A Revolução!, a Revolução, menina.” E quando vi estávamos enfiadas num ônibus verde lotado e que não o nosso. Para onde iríamos? Aquele não era o nosso ônibus. Revolução — meu guaraná em cima do balcão, minha casa sem televisão.

FELINTO, Marilene. As mulheres de Tijucopapo. São Paulo: Ubu, 2021. p. 24-25.

Testemunhando um momento histórico, o narrador-personagem mobiliza recursos de linguagem que geram uma expressividade centrada na

A indiferença com os rumos da sociedade.
B consciência dos sentidos da vida cotidiana.
C denúncia da situação de instabilidade política.
D dúvida sobre o posicionamento diante dos fatos.
E exposição dos fatos que transformaram as instituições.

Gabarito: B
Justificativa: A narradora se recorda da experiência de tomar um guaraná com a amiga, quando a “Revolução” acontece subitamente. A fuga desorientada do perigo representou, para a narradora, a interrupção da experiência com o guaraná (“meu guaraná em cima do balcão”) e a incompreensão dos sentidos da “Revolução”, devido à ausência de televisão em casa. Assim, a experiência cotidiana de tomar um guaraná na cidade é o foco narrativo do fragmento e é valorizada em detrimento dos acontecimentos da Revolução.