
Quando se passa a narrativa de Assim na terra como embaixo da terra?
Embora não haja menção direta ao tempo histórico, alguns elementos da narrativa localizam, mesmo que de maneira pouco determinada, a Colônia Penal.
Sabemos, por exemplo, que as linhas de telefone não funcionam na penitenciária e, por isso, a comunicação com o entorno fica suspensa.
Não há internet? A história se passa antes de a internet se disseminar ou, devido ao isolamento imposto à Colônia pelo Estado, a internet, que existe, não chega até ali? Ou, ainda: estaríamos diante de uma Colônia futura, que antecipa a degradação ainda maior e, no limite, a nazificação do sistema penal?
Essas perguntas não encontram resposta precisa na narrativa, que, além disso, indica se passar numa República, mais de 100 anos depois da escravização de parte da sua população. Os detentos portam tornozeleiras eletrônicas, no alto dos muros há uma cerca eletrificada, e javalis são uma espécie endêmica na região.
Esses dados nos fazem considerar o Brasil contemporâneo, embora a Colônia esteja localizada num deserto. Deserto ou sertão?
É fato que é possível construir a verossimilhança da situação desta narrativa, embora conviva com alguma indeterminação.
Uma Colônia Penal isolada, fim de linha do sistema penitenciário, esquecida de propósito pelo Estado. Não se trata exclusivamente de uma alegoria, pois pode funcionar como metonímia do encarceramento em massa vigente.
Se for assim, a literatura, então, dá notícia dos limites do Estado. Lá onde o jornalismo não chega, está presente a narradora, que reporta a vida nos limites do sistema penitenciário, ou melhor, no fim do sistema que faz parcela da população desaparecer do convívio social.
Na narrativa, é possível que esta Colônia exista hoje. Nem passado que mal passou, nem futuro distópico. Mas, se a Colônia existe, na narrativa, agora, então a ficção narrada transporta o leitor para o território deserto de notícias, destituído da linguagem social comum.
A literatura de ficção aparece, assim, como suplemento do trabalho jornalístico. Este não dá conta das contradições do Estado. O Estado, por sua vez, administra o racismo, ou seja, a separação entre as vidas que devem desaparecer, e aquelas que podem durar.
Nesse sentido, Assim na terra como embaixo da terra (2017), de Ana Paula Maia, acopla à imaginação do leitor um lugar que, estando ligado às penitenciárias conhecidas, invalida a existência de cada uma delas. A ficção quer funcionar como uma espécie de vírus, que hackeia a imaginação justificadora do sistema penitenciário.
Como afirma Melquíades no Capítulo 3 da narrativa, consciente da situação em que vive: “O problema é que uma vez que se corrige o mal, a punição para o mal seguinte precisa ser ainda mais severa”. E, assim, ad infinitum, até o fim dos tempos (que já é outra parte da história).