Imagem de divulgação no site da editora

O universo ficcional do livro Assim na terra como embaixo da terra (2017), de Ana Paula Maia, encerra uma realidade contraditória. As condições torturantes das penitenciárias brasileiras, se comparadas à ficção, estão pioradas na Colônia Penal esquecida pelo Estado e transformada em campo de extermínio. Por outro lado, a memória da violência colonial, que se manifesta, por exemplo, nas construções no subsolo da Colônia, destinadas a punir pessoas escravizadas que lutassem por dignidade, tornam o exagero, alegoria.

A situação narrada é tal que sinais de verossimilhança, como as menções a jaguatiricas, amendoeiras e javalis, telefones, República e tornozeleiras eletrônicas, embora localizem relativamente o tempo e o espaço da narrativa, parecem contradizer a realidade narrada, que, a princípio, não existe. A mensagem embutida na garrafa da narração parece conter a notícia de uma realidade escondida: a Colônia de Assim na terra como embaixo da terra apenas não é conhecidada pelo leitor, pela população, que, seja juiz ou réu, tem notícias de memórias do cárcere ou diários de um detento um pouco distintos.

Então, embora se possa considerar o livro uma alegoria da experiência de encarceramento em território historicamente colonizado, inquieta a proximidade entre a matéria narrada e as notícias da barbárie cotidiana perpetrada por polícias, tribunais ou paramilitares, sobretudo nas Américas ou na Europa. Confusão entre penitenciária, campo de extermínio e casa grande, a Colônia intersecciona territórios históricos que, reunidos, parecem figurar uma experiência comum. Embora em posições diferentes, agentes da lei e condenados concordam, na ficção, quanto à inoperância da prisão.

No entanto, o efeito da Colônia sobre os dois lados da lei é divergente. Bronco Gil, prisioneiro e protagonista, sabe que o muro que o separa do deserto de fora pode cair, o que não acontece com a autoridade, iludida e coadjuvante. A pergunta que move Bronco Gil: como sair da Colônia? Uma resposta que a narrativa oferece: por acidente. O poder ficcional da Colônia coloniza mesmo o herói, que crê na inteligência da tornozeleira, crê no castigo acoplado à pele, crê na ficção. Por isso, a pergunta do herói conversa com a pergunta do/a narrador/a: como sair da Ficção?

Esse fragmento consiste na primeira pergunta que gostaria de formular a estudantes da primeira série do ensino médio, após escutar suas impressões de leitura da narrativa de Ana Paula Maia. Trata-se de uma anotação de trabalho.