Capa com pintura de Paul Klee,
no livro de Ana Luísa Amaral

Presto atenção nos poemas contemporâneos que tematizam a escola. E são muitos!

No mais recente livro de Ana Luísa Amaral (1956-2022), Mundo, lançado em 2021 em Portugal, há um que dá título à segunda seção do livro: “Experiências e evidências”.

A forma do método científico, que associa sensação à racionalidade (experimentar para concluir), parece também a forma de algum método poético que pode ser lido no poema.

A lembrança de um experimento escolar (“dois ímanes/ e uma folha de papel”) é associada ao trabalho de Vera Rubin (1928-2016), astrônoma norte-americana que demonstrou a existência da matéria escura.

EXPERIÊNCIAS E EVIDÊNCIAS

Quando eu era menina,
fazíamos na escola uma experiência
com dois ímanes
e uma folha de papel

Era uma dança estranha
e fascinante,
a do íman pousado no papel
obedecendo ao outro, o encoberto,
um hércules de força
misteriosa

Durante muito tempo
acreditei
que o magnetismo era uma coisa
de homens sábios, aquele papagaio
de Benjamin Franklin ficou-me na memória:
o papagaio voando,
e de entre as nuvens, o relâmpago
e a promessa de aprisionar a luz

Eu não sabia então que só há poucos anos
pôde a primeira mulher
usar um telescópio de excelência,
provar a existência da matéria negra
na beleza do movimento angular
das galáxias

O interior da História
repelido por séculos,
o corpo em negativo de tantas antes dela:
um grão de areia
de encontro ao negativo do deserto
– durante tantos séculos

E contudo, moveram-se,
uma dança de carga positiva voando
no papel, como invisível é a maior parte
da matéria, mas existe

(Está mais do que
provado)

AMARAL, Ana Luísa. Mundo. São Paulo: Assírio & Alvim, 2022. p. 38-39.

Os “homens sábios” na memória escolar são contrapostos à mulher cientista que a poeta conheceu na maturidade. De repente, o experimento com os ímãs na escola significa “o corpo em negativo” das mulheres na ciência, antes de Vera Rubin.

Corpos que, como a matéria escura, atuam ou atuaram no interior da História, movendo-a, ainda que invisíveis. A prova científica ou poética do invisível está numa palavra só, que reúne a experiência e a evidência: “(Está mais do que/ provado)”.

O poema se conclui como um teorema, demonstrando o que estava anunciado no título e também na memória. O que se aprendeu na escola esconde o movimento da História, que, no entanto, pode se revelar no poema.

O poema, então, nesse caso, pode concluir os saberes escolares, que são matéria de poesia.