Esse post é um material de estudo que consiste num breve comentário às indicações de leitura de ficção pelo Vestibular Estadual 2023, organizado pela Uerj. Nesse blog, venho apresentando algumas leituras de provas de vestibular como documentos curriculares para a prática pedagógica no ensino médio. Foi uma estratégia que encontrei para a reflexão sobre o trabalho em sala de aula.

No dia 4 de dezembro de 2022, será realizado o Vestibular Estadual 2023, organizado pela Uerj. Como tem acontecido desde a edição de 2018, livros de ficção são indicados para a leitura pelos candidatos. Uma dessas indicações de leitura se torna objeto de reflexão para a prova de redação argumentativa, abordagem do texto literário que extrapola os saberes de história da literatura brasileira que tradicionalmente circulam nas aulas de ensino médio, em geral.

A indicação de leitura do Vestibular organizado pela Uerj pode representar, a meu ver, uma oportunidade curricular para professores do ensino médio, não somente aqueles que atuam na disciplina de Português ou Língua Portuguesa. Trata-se de uma narrativa de ficção culturalmente relevante, que poderá ser lida por estudantes de escolas diversas, e cuja abordagem será reflexiva sobre alguma “questão polêmica” da obra.

Nesse ano, não houve, como nos anteriores, um processo de votação online para eleger o livro de ficção abordado pelo Vestibular a partir de um conjunto de candidatos. Tratava-se, a meu ver, de uma experiência interessante de leitura comum, que demandava, no entanto, maior engajamento de escolas e professores para que viesse a se tornar significativa na cultura escolar do Rio de Janeiro.

Apesar dessa ausência, a indicação de Não me abandone jamais (2005), de Kazuo Ishiguro, e de Niketche (2001), de Paulina Chiziane, pode sugerir um aspecto novo na seleção das leituras, que seja do interesse de professores. Tanto Ishiguro quanto Chiziane foram laureados em premiações muito importantes: o escritor nipo-britânico recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 2017, e a escritora moçambicana, o Prêmio Camões, em 2021.

Embora possa se tratar de mera coincidência, a indicação de leitura desses autores premiados pode interessar à formação de leitores informados sobre os processos sociais de reconhecimento literário, e atentos às premiações como indicações de leitura. A premiação literária promovida por Estados nacionais democráticos, a cargo de comissões independentes, a princípio serve à comunicação entre o campo profissional literário e o público leitor em geral. Daí a sua relevância no contexto escolar.

Ambos os livros indicados, estrangeiros, também convidam a cultura escolar no Rio de Janeiro a ampliar os territórios das ficções tradicionalmente escolhidas no ensino médio. A atenção para contextos e línguas diversas na literatura mundial não precisa ser encarada como um adensamento improvável do currículo, mas como um posição viável de leitores formados pela escola.

Aprender na escola que há ficção produzida em diversos países, que esses livros estão disponíveis no Brasil, que existe o ofício e um mercado da tradução literária, que Estados destinam orçamento para formar, publicar ou premiar escritores de ficção, que a produção literária mundial conversa com culturas locais, que a literatura é uma instituição atual e diversa, que pode conversar com diversas ciências…

Esses saberes implicam mudanças nas práticas curriculares em literatura na escola, sim, mas não implicam aprender a história da literatura mundial ou das diversas literaturas nacionais, além da história da literatura brasileira tradicionalmente abordada. Por isso, me referi a uma mudança de posição do leitor formado pela escola: ele conhece livros e fragmentos relevantes da ficção brasileira, conhece modos de ler e escrever literatura, e elabora critérios para formar um gosto ou mesmo um projeto cultural.