
Durante essa semana, pude conversar com dois estudantes sensíveis ao trabalho que desenvolvo como professor, e escutar observações críticas sobre as aulas. Esse papo me fez lembrar o trabalho realizado nesse ano letivo de 2022 e elaborar objetivos e resultados alcançados.
Vou usar um exemplo para refletir sobre as aulas que dei no ensino médio nos últimos quatro meses. No começo do ano letivo de 2022, entrevistei um grupo de 52 estudantes da primeira série do ensino médio na escola onde trabalho.
Perfil dos estudantes
A maioria dos estudantes tinha 15 anos no dia da entrevista, mas o grupo inclui pessoas de 14 a 18 anos. Além disso, a maioria reside na região da Zona Norte do município do Rio de Janeiro. São adolescentes, em geral, filhos de pessoas com ensino superior completo; que não trabalham, seja por remuneração ou no cuidado de outra pessoa; e com livros em casa.
Índice de leitura
Considerando os critérios também adotados na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, perguntei aos estudantes se tinham lido um livro, inteiro ou em parte, nos últimos três meses. Num universo de 52 alunos, 40 deles declararam ter lido um livro inteiro ou em parte, em formato físico ou digital, de ficção ou não. Isso corresponde a 77% da amostra.
A princípio, trata-se de um índice maior do que a média brasileira, que na última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2019 e publicada em 2020, estava em 52% da população em geral, com 5 anos ou mais. No entanto, se considerada apenas a faixa etária pesquisada, o resultado em contexto escolar não difere muito do índice nacional, que está em 67% de leitores entre adolescentes de 14 a 17 anos.
Ler literatura
Também procurei saber se o livro recentemente lido era de ficção e se foi lido integralmente. Nesse caso, apenas 13 alunos declararam ter lido um livro inteiro de literatura nos últimos três meses, o que corresponde a 25% do grupo.
Mesmo reconhecendo que a leitura integral do livro pode não ser um critério justo para a fruição leitora, considero-a um aspecto importante a ser considerado na adolescência. Para a maioria dos estudantes, o ensino médio representará a última oportunidade de ler ficção sob mediação de um leitor profissional, em contexto formal de educação.
Além disso, o índice de leitura tende a cair à medida que a idade avança, e a escola consiste na principal instituição de letramento da população. Por isso, criar possibilidades para que a leitura de ficção seja cotidiana entre adolescentes parece decisivo para a democratização da literatura na sociedade em geral. Daí minha preocupação com o resultado.
Desafios na sala de aula
O principal desafio da sala de aula em literatura está na formação de uma rotina de leitura coletiva. Professores precisam lidar com currículos e avaliações que não reconhecem, em geral, a leitura coletiva como a principal prática pedagógica, e condições de trabalho que não remuneram a leitura de textos diversos escritos por seus estudantes.
Além disso, professores são pessoas especializadas em leitura. Por isso, suas rotinas de leitura podem não ser a melhor referência para demais leitores que experimentam e vão experimentar condições de vida adversas à concentração e à imaginação. É preciso curiosidade para compreender as possibilidades da leitura na rotina dos trabalhadores.
É nesse sentido que tenho me engajado na leitura coletiva: troca de impressões, comentário crítico e registro por escrito da leitura. É um ciclo sem fim. Considero este um método de estudo para qualquer teoria abordada pelo currículo estabelecido. É uma tentativa.