No dia 29 de junho de 2022, fiz uma intervenção no Colóquio 100 Anos da Semana de Arte Moderna: Perspectivas Críticas, na Escola de Letras da UNIRIO, a convite da professora Luciana Vilhena, a quem agradeço a confiança. Dividi a mesa com o professor Zeca Ligièro, que apresentou sua perspectiva da performance afro-ameríndia, conceito importante que concebe e desenvolve.
Depois da sua apresentação, propus uma fala a partir de um “poema menor” de Oswald de Andrade:
erro de português
ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 183.
Quando o português chegou
Debaixo d’uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
1925
A ideia foi explorar a ambiguidade do termo “erro de português”, reivindicada no poema, como método de análise do uso e do ensino de norma-padrão no português brasileiro. Assim, a expressão de senso comum do erro gramatical fica atravessada pelo paradigma da colonialidade, o que perturba as noções de aprendizagem linguística. Como assim?
Comecei observando a ausência do termo Modernismo na Base Nacional Comum Curricular, e a presença do termo no Projeto Político Pedagógico Institucional 2017-2020 do Colégio Pedro II, instituição onde atuo. No documento, prevê-se o estudo do Modernismo em diversas disciplinas (Artes, Educação Musical, História e Português) e séries (Nono Ano do Ensino Fundamental, e as três séries do Ensino Médio). Essa distribuição indica possibilidades de trabalho interdisciplinar a partir do currículo vigente.
Além disso, a abordagem do Modernismo pela disciplina de Português sugere que a variação linguística é um traço estético do processo de modernização da literatura brasileira, o que inclui, no documento, as etiquetas de Pré-Modernismo e Modernismo. Assim, os estudos gramaticais ficam relacionados com os estudos de história da cultura, estabelecendo uma relação de intimidade entre conhecer a língua e conhecer a cultura letrada. Essa posição, no entanto, precisa encontrar alguns limites no projeto do Modernismo paulista, sob a perspectiva atual. Desenvolvi dois exemplos.
A crítica de Nei Lopes à representação de Tia Ciata, em Macunaíma, de Mário de Andrade, foi o primeiro. A canção de Nei Lopes, que pode ser escutada aqui, lê o capítulo “Macumba” do livro de 1928 e propõe uma resposta, sob a perspectiva da malandragem carioca, ao uso que o personagem Macunaíma faz da “macumba” de Tia Ciata. O estilo malandro, que pode ser caracterizado, entre outros elementos, pelo trocadilho entre a Tia “pedra-noventa” e o Macunaíma “22”, trocadilho que mobiliza conhecimentos de jogatina e legislação (de acordo com as tecnologias de sobrevivência da cultura da malandragem)… esse estilo fala contra o estilo “amalucado” do texto paulista, pondo em disputa dois dialetos, que representam dois projetos culturais. O debate é longo e gostaria apenas de terminar confirmando essa análise pela grafia do nome do personagem, “Macunaíma”, que consiste num abrasileiramento e, nesse sentido, na nacionalização da transcrição “Makunaima” ou “Makunaimã”, grafias estas que consideram a oralidade das línguas indígenas e a diversidade linguística em território brasileiro. Isso quer dizer que tanto a viagem de Macunaíma ao Rio de Janeiro quanto a grafia do seu nome podem ser lidas como espécies de “erros de português”, com base na canção de Nei Lopes e na linguística das línguas indígenas.
O segundo exemplo abordado na apresentação foi o projeto de gramática do português que Mário de Andrade deixou fragmentado e batizou de “Gramatiquinha”. Embora seja um projeto fragmentário e contraditório, parece possível afirmar que Mário realizou notas gramaticais para a formação de um estilo literário em língua brasileira, o qual buscou realizar em suas obras. O ponto de interesse aqui está na posição do escritor que se entende como criador de gramática, consciente do lugar problemático da língua portuguesa no Brasil. Ou seja, o escritor trabalha para não cometer “erros de português”, em sentido duplo. Ainda assim, trata-se de uma posição que pode ser lida como uma espécie de neurose colonial, distinta, por exemplo, da elaboração que Lélia Gonzalez faz, posteriormente a Mário, do “pretuguês”. Em lugar do trabalho contra os erros de português, por uma língua brasileira por se fazer, aparece, em Lélia, uma língua brasileira historicamente existente e desprezada, e que põe em xeque uma noção de norma-padrão nacional.
Com isso, para um professor que atua no ensino de português nas escolas, o texto modernista parece apontar tanto para a valorização dos dialetos do português no Brasil, quanto para certa incompreensão da diversidade linguística que formou o país e existe nele. O desafio parece estar em:
- Conhecer a diversidade linguística do país, ou seja, a diversidade gramatical e cultural das línguas indígenas, e a atuação hoje de línguas de origem africana no português.
- Reconhecer os valores de classe social e racialidade no projeto de abrasileiramento da norma-padrão da língua portuguesa, realizado, inclusive, pelo Modernismo paulista.
Procurei elaborar e resumir brevemente as ideias que propus aos alunos da Escola de Letras da UNIRIO, no evento para o centenário da Semana de Arte Moderna. Foi uma alegria estar com eles.






