
Em 2020, me deparei com um poema inédito em livro de Ferreira Gullar, que foi publicado nas páginas do Jornal do Brasil em fevereiro de 1957, na véspera da abertura da I Exposição Nacional de Arte Concreta.
O poema longo ocupa uma página inteira do JB e foi anunciado como “trailer” da exposição. Apesar do interesse histórico dessa Exposição, o poema não parece ter sido incorporado nas leituras da poesia concreta.
Ferreira Gullar, o primeiro a mantê-lo inédito, não lembra desse texto singular em seus trabalhos autobiográficos, tampouco os demais integrantes do movimento se referem a ele.
Mesmo assim, o poema parece interessante: inova na organização espacial do verso, dado o contexto, e apresenta uma perspectiva catastrófica da existência, em diálogo com A luta corporal (1954).
Contemporâneo a O formigueiro (1956), o poema concreto e sem título de fevereiro de 57 escreve a derrocada do corpo vivo, consumido pelo fogo do tempo.
O tema gullariano está trabalhado aqui também na mesma época em que o poeta escreveu os versos de O vil metal (1980), título que reuniu, posteriormente, os poemas em verso que escreveu durante o período de engajamento nos movimentos concreto e neoconcreto.