Capa do romance escolhido para o Vestibular Estadual 2022

Desde que o Enem se tornou o principal meio de acesso às universidades públicas e às faculdades privadas no país, os vestibulares estaduais têm exercido o papel de contraponto local à prova nacional. Preservando métodos de avaliação de qualidade, como as etapas discursivas nas áreas de conhecimento específicas dos candidatos, e autonomia na abordagem de temas divergentes, dada a sua repercussão localizada, esses vestibulares também representam a atuação de professores universitários sobre a cultura curricular nas escolas dos seus estados.

No caso do Rio de Janeiro, o Vestibular Estadual, organizado pelo Departamento de Seleção Acadêmica da Uerj, passou a propor uma consulta pública para a escolha das leituras literárias necessárias às provas. Embora essa consulta não pareça estar incorporada ao cotidiano das escolas que conheço, ela convida estudantes e comunidades escolares a se mobilizarem na escolha dos livros a serem lidos. O processo de leitura, no entanto, está limitado a estudantes e famílias com recursos para acessar as obras escolhidas, sejam recursos financeiros ou filantrópicos, já que algumas obras não estão em domínio público.

Além disso, no caso da Uerj, mesmo que se reconheça o esforço em propor livros contemporâneos e em gêneros variados, parece haver alguma indiferença em relação à justa diversidade de autorias das obras. Os livros escolhidos são abordados em perspectiva interdisciplinar, especialmente aquele que se torna objeto do tema da redação. Entre esses livros, por exemplo, foram escolhidos em votação os seguintes nos últimos anos:

Resultado de escolhas realizadas sob consulta pública, a lista das obras abordadas na redação pode ser considerada, retrospectivamente, como variada em relação à data de publicação, que contempla os últimos 120 anos de literatura, ao local de publicação, pois inclui uma obra produzida em língua inglesa, e ao gênero do romance, que contempla ficção científica e narrativa policial. É flagrante que não haja diversidade de gênero na autoria, e quanto à racialidade a variação não parece representar um esforço de equidade.

Os temas propostos pela prova de redação a partir da leitura dos romances estão relacionados com reflexões éticas que podem considerar a ficção como objeto. Contrapõem-se, assim, aos temas da prova do Enem, que entendem o texto dissertativo como meio de intervenção social, pois inclui uma proposta de intervenção a ser elaborada para o contexto nacional. Trata-se de perspectivas distintas de cidadania, que parecem advir de tradições teóricas também distintas de reflexão em produção textual. As perspectivas consideram a literatura como objeto de reflexão para temas de Ética ou a realidade nacional para a elaboração de proposta de intervenção social.

  • Vestibular Estadual 2018: Dom Casmurro, de Machado de Assis
    A verdade pode ser estabelecida com base em uma única perspectiva?
  • Vestibular Estadual 2019: O seminarista, de Rubem Fonseca
    É justificável cometer um crime para vingar outro crime?
  • Vestibular Estadual 2020: Vidas secas, de Graciliano Ramos
    O que leva pessoas, em condições semelhantes às de Fabiano, a se considerarem inferiores às demais?
  • Vestibular Estadual 2021: 1984, de George Orwell
    A mentira programada é uma arma política válida para conquistar o poder e sustentá-lo?

Verdade e perspectiva, crime e justificação, pessoa e valor, mentira e política… Os temas propostos para a redação procuram relacionar duas noções que suscitam polêmica a partir da leitura dos romances. No caso do romance escolhido para o Vestibular Estadual 2022, o principal tema polêmico parece ser a corrução policial. Em Uma janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, o delegado protagonista investiga o assassinato de policiais relacionado com esquemas corruptos no bairro. Embora a narrativa também aborde, sob perspectiva polêmica, a relação de gênero entre mulheres e homens, o tema da corrupção policial no livro está relacionado às motivações dos crimes investigados e dialoga com o contexto político-eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. O ocupação territorial pelas milícias formadas por agentes ou ex-agentes de segurança pública é considerado um tema urgente para as eleições estaduais de 2022.

Entre os trechos da narrativa que expõem a polêmica, este talvez seja o mais evidente:

Quero ressaltar que, independentemente da origem e dos fins, não há boa propina. Propina não é complemento salarial. Propina é suborno. Quem aceita suborno, assim como quem subornou, é corrupto. E corrupção, além de ser um problema legal, é um problema ético. Quando ela impede que se leve a cabo a investigação do assassinato dos próprios colegas, o problema se torna extremamente crítico.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Uma janela em Copacabana. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 197.

Ao investigar o assassinato de policiais em Copacabana, o delegado Espinosa se depara com uma rede de corrupção formada pelos próprios policiais da sua delegacia. O enunciado da prova de redação do Vestibular Estadual de 2022 pode seguir a tendência:

A partir da leitura do romance, escreva uma redação dissertativa-argumentativa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:

A corrupção nas forças policiais interfere na segurança da população exercida pelo Estado?

Seu texto deve atender à norma padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente escrito com caneta.

Não sei se pude fazer uma boa formulação da questão, de acordo com o estilo apresentado pela comissão de Vestibular nos últimos anos. De qualquer maneira, o teor da questão a ser colocada pode não se distanciar muito da perspectiva elaborada nesse texto, baseada na análise das últimas propostas. Fica essa análise, resultado da preparação de aulas para o ensino médio, como sugestão de material didático e proposta de diálogo com professores e estudantes interessados no tema.