Na tarde do dia 18 de outubro de 2021, uma segunda-feira, o perfil @muiedomianhanha publicou no Twitter uma sequência de prints de conversas familiares. O pai da “Carol” ficou muito preocupado quando, num belo dia, acordou para trabalhar e leu no WhatsApp, meio sonâmbulo, a mensagem da filha: “Oiii, não tenho pai”, que tinha sido enviada durante a madrugada. O pai não associou a frase à pergunta que tinha feito à filha na manhã do dia anterior (“Bom dia, Carol tu tens o Watssap do Emanoel?”). Além de ter passado o dia sem resposta, foi dormir sem ter sido atendido pela filha depois de insistir no contato, durante a noite.

Aproveitei esse tuíte, que em cerca de 48h recebeu mais de 260 mil curtidas, para continuar os estudos de morfossintaxe do período simples com meus alunos da segunda série do ensino médio. Partindo do princípio de que as ambiguidades sintáticas são fenômenos interessantes para a compreensão das relações gramaticais na língua (evoé, Noam Chomsky!), e de que estudar morfossintaxe implica tomar consciência dos processos sociais de comunicação (evoé, Mikhail Bakhtin!), a leitura do tuíte da Carol foi acompanhada pelo debate sobre experiência linguística e responsabilidade gramatical. Como assim?

Diversos comentários ao tuíte ressaltaram a ausência de vírgula como causa do mal-entendido. “A vírgula o terror do seu pai”, “a menina que matou a vírgula” ou “a vírgula poderia ter salvado o dia” representam perspectivas normativistas da situação, pois interpretam o engano na comunicação em virtude de uma norma ortográfica. A noção implícita nesses comentários é que o emprego da vírgula de acordo com a norma-padrão da língua evita ambiguidades. Nesse caso, de fato o uso da vírgula em “não tenho, pai” evitaria a ambiguidade da frase em perspectiva letrada. No entanto, supor que o uso da norma-padrão por si só evita ruídos na comunicação é um equívoco, pois esse tipo de evento pode acontecer em qualquer caso.

Mensagem do pai para a mãe da Carol

No Dicionário de Análise do Discurso, Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau propõem que a ambiguidade pode ser observada sob duas perspectivas. Sob perspectiva linguística, a frase do tuíte da Carol apresenta uma ambiguidade sintática, para a qual contribui a ausência da vírgula, observada com base na norma-padrão preconizada para o português brasileiro. Assim, o termo “pai” foi interpretado pelo interlocutor como objeto direto do verbo da oração, ou seja, como objeto da falta: pai é aquilo que ela, a enunciadora da frase, não tem. Apesar disso, a intenção da filha foi usar o termo “pai” como vocativo, ou seja, como chamamento da pessoa com quem se fala. Podemos concluir, então, que a “estrutura de superfície” da frase, a sequência de palavras lida, não revelou “a qual estrutura subjacente corresponde” necessariamente (Charaudeau & Maingueneau, 2012, p. 35).

No entanto, sob outra perspectiva de análise, o que está em jogo na ambiguidade da frase é o sentido implícito motivado pelo contexto de comunicação. A demora em receber uma resposta e o vínculo afetivo de cuidado com a filha parecem ter sido determinantes para a interpretação realizada por “Chico”, o pai. A resposta dada durante a madrugada, depois do longo silêncio durante o dia, e as condições de leitura da mensagem logo depois que acordou são outros fatores que participam do sentido da mensagem enviada pela filha. Sob perspectiva discursiva, o fantasma da vírgula se transforma num mero detalhe da interpretação da frase pelo pai. Dessa maneira, a ambiguidade da frase manifesta o complexo de relações afetivas que participa da comunicação entre Chico e Carol.

Clímax da conversa entre pai e filha

Eu não sei vocês, mas quando eu escrevo para as pessoas que eu mais amo, não gosto muito de usar vírgulas e pontos, prefiro supor que nos entendemos apesar das normas e dos padrões. Como o meme nos ensina, nem sempre a suposição está correta. E essa é a graça, ou a melhor parte dela. A situação de comunicação (uma conversa informal pelo celular) organiza o estilo que podemos usar e essa escolha está marcada pela natureza da relação social que estabelecemos com alguém. Usar ou não a vírgula não está em questão nessa conversa entre pai e filha. Compreender a gramática em perspectiva democrática demanda, a meu ver, apostar na solidariedade entre falantes e afirmar os diversos usos da língua. Afinal, se você for capaz de conversar, debater, pedir, duvidar, reconhecer, não vai ser culpa da vírgula.

O processo de letramento, que inclui a aprendizagem de regras gramaticais em uso, precisa ser orientado pela ética da comunicação, o que vale dizer: pela construção de um solo comum entre falantes. Concepções gramaticais que, a princípio, identificam no outro a falta, o erro ou o descuido são heranças colonialistas numa sociedade com agudas desigualdades no letramento da população, e não precisam ser perpetuadas pela escola ou pelas universidades. Nem mesmo pelas redes sociais. Reconhecer a graça do mundo (ou da timeline) quando ela acontece como uma “Babel feliz”, para lembrar a imagem de Roland Barthes para o prazer do texto, pode ser uma lição das aulas de português na escola rumo a outros modos de conviver. Gramática e literatura conjugadas: um fazer da democracia.

Nesse texto, fiz referência ao livro Dicionário de análise do discurso (2004), de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, publicado no Brasil em 2012 pela editora Contexto, e ao livro O prazer do texto (1973), de Roland Barthes, em edição publicada em 2004 pela editora Perspectiva.