Desenho do bairro no Google Maps

O bairro onde nasci foi desenhado na mesa de algum arquiteto. Demorei a entender como as ruas paralelas e as quadras regulares à margem do rio Meriti também me desenharam. Bairro-jardim com as ruas asfaltadas, eram chamadas de rua dezoito, primeira casa, rua dezessete, onde vive minha avó, rua três, última casa. Mas as ruas tinham nomes que eu gostava de aprender a falar. Estudei na Rua Debussy, morei na Sebastian Bach e joguei bola na Franz Liszt. Todos diziam: Baque, Debussi, Liste, e preferiam os números, que explicavam o ordenamento do bairro. 

Jardim América conta a história da música erudita e europeia nas placas das ruas onde se escutava funk e pagode no final do século. Os aviões que desciam a Serra dos Órgãos para pousar no Tom Jobim passavam rasantes no quintal de casa. Quintal de cimento ou de cacos de telha, as roupas estendidas no varal de arame, alguma cadeira de fios de plástico e as flores tristes e baldias pela varanda. Na calçada do vizinho estava plantada uma velha amendoeira que dava muita sombra e folhas secas. Seu Fidélis contava que a tinha plantado adolescente e eu entendi depois aquela amendoeira como sua parceira solitária no itinerário da leveza. Eu queria aprender a tocar guitarra, não sabia ainda que minha família era vizinha de Nelson Cavaquinho. 

Para uma criança, o bairro tem o tamanho da cidade inteira. Jardim América foi meu Rio de Janeiro e ele era modernista e suburbano. A casa que meu avô construiu para morar com minha avó que o diga. Projetou um terraço de ponta a ponta do terreno, a casa térrea estreita e recuada, um vão fresco e verde na entrada da casa (e as garrafas quebradas enterradas no alto do muro para nenhum aventureiro pular). Depois um tio sentiu falta de sombra no terraço e instalou telhas de amianto. A prefeitura ordenou as calçadas do bairro e cobriu com cimento as pedras portuguesas que imitavam as ondas de Burle Marx na orla de Copacabana. A sacada aérea e a entrada litorânea desapareceram e a casa na Rua Robert Schumann ficou mais distante da infância.

Um dia conheci Brasília, uma cidade desenhada. Fui a trabalho e descobri alguma coisa, porque voltei para casa sentindo alguma coisa diferente. Como em Brasília, o desenho de algum arquiteto traçou a rua onde minha mãe conheceu meu pai. As ruas onde andei de bicicleta e joguei bola. As praças onde desfilei de bate-bola. Mas, ao contrário de Brasília, não conheço os arquitetos que desenharam a cidade da minha infância, porque são multidão. Continuo a esculpir essa cidade à base de pagode no último volume domingo de manhã.