Imagem do poema Naum, acompanhado de ilustração por Felipe Stefani, e reproduções de três profetas de Antônio Francisco Lisboa

Antônio Francisco Lisboa reescreveu a Bíblia com pedra-sabão, traduziu o Antigo Testamento para a língua de pedras das Minas Geraes, profetizou com as esculturas algum futuro para cá, leio nos versos de habacuque + 11, de Evandro von Sydow.

A série de sonetos retorcidos, cada um, como cada profeta esculpido, dobrando-se em diferentes texturas e sob a resistência de diferente material, escreve no português brasileiro a escrita de Antônio Francisco Lisboa, um exercício de escuta de ecos bíblicos no Brasil contemporâneo.

Foi isso o que mais me tocou na plaquete de poemas que Evandro publicou nesse junho de 2021: ler a Bíblia, como fez Antônio Francisco Lisboa e como faz, através de Antônio Francisco Lisboa, Evandro von Sydow, significa, hoje, conversar com a cultura política “terrivelmente evangélica” que apresenta uma versão triunfal das palavras de Deus.

Sobretudo reconhecer cada profeta como um “indignado”, porque, como revelou o projeta Isaías a William Blake: “A voz da indignação é a voz de Deus”, na tradução de Evandro. O afeto da indignação aparece na abertura entre palavra e palavra: a série de sonetos abre com o diálogo difícil entre pedra e sabão, Rio Maranhão e Minas Gerais, Bíblia e poema, silêncio e comunicação, autoridade e pobreza.

Penso mesmo que, em certo sentido, formas de comunicação simbolizantes (profecias, fábulas, mitos, parábolas) têm desafiado as formas literárias do realismo. No encontro com vozes silenciadas, os gêneros da ficção são perturbados por traços de ficção científica ou narrativa policial, discursos divinatórios ou conspiratórios.

habacuque + 11 lê o conjunto dos doze profetas esculpidos em pedra-sabão por Antônio Francisco Lisboa como ecos bíblicos da indignação, o que vale dizer: são escritores (cada profeta) localizados no Brasil, mas num Brasil diferente deste que usa a Bíblia como tática miliciana.

Felipe Stefani desenha as linhas da escrita de Antônio Francisco Lisboa, como se suas ilustrações estivessem a meio caminho entre as esculturas e os sonetos, revelando o trabalho da metamorfose entre pedra e livro.

Contra as retinas fatigadas.

Uma versão anterior da série de sonetos de Evandro von Sidow está publicada no blog escamandro. Agradeço a Dalila Aguiar, pela leitura e pela conversa sobre os poemas.