Fotografia de poema de Ferreira Gullar divulgada na coluna de Ruy Castro.

Em 11 de julho de 2021, Ruy Castro noticiou em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo um poema de Ferreira Gullar que ele recebeu manuscrito do avô quando criança, nos anos 1950. Revisei a pontuação do texto com base na fotografia divulgada pelo colunista.

Soneto para a mão direita de S. Francisco de Assis

Estranha mão que sobre mim te espalmas,
limpa como os primeiros sofrimentos,
vem para adormecer meus pensamentos
com essa tua ternura de águas calmas.

Essa mansa canção de gestos lentos,
mãos, que salvaste pássaros e almas,
afaga as minhas mãos em cujas palmas
crescem desejos de estrangulamentos.

E me salva estas mãos de magros dedos,
mostra-lhes a beleza dos martírios
na renúncia dos gozos e dos brinquedos.

E todos vejam, quando enfim desfeitas,
as mãos do poeta rebentando em lírios,
lírios (carícias que não foram feitas).

Ferreira Gullar 5 nov 1949

Ruy Castro apenas sublinha a imagem do verso oitavo, “desejos de estrangulamentos”, como significativa para a obra em geral de Gullar.

O poeta compôs uma trajetória agônica das formas do poema desde os sonetos prévios ao livro A luta corporal, a exemplo deste, até o Poema sujo. No entanto, ao reunir sua obra, fez, como fazem diversos poetas, uma seleção do que publicou, principalmente nos primeiros anos de trajetória.

Não apenas o primeiro livro publicado, Um pouco acima do chão, mas também um poema publicado no Jornal do Brasil em fevereiro de 1957, contemporâneo à I Exposição Nacional de Arte Concreta, importante para compreender as escolhas do poeta nos seus primeiros anos como escritor – são dois exemplos da seleção realizada.

Ler os arquivos da poesia é como encontrar as mãos condenadas dos poetas, que, no entanto, escrevem “lírios, lírios”.