CANÇÃO
Noite amarga
sem estrela.
Sem estrela
mas com lágrimas.
*
TRASFLOR
Borboleta vinda do alto
na palma da mão pousou.
Lavor de ouro sobre esmalte:
linda palavra – trasflor.
*
PENSAMOR
Como pesa pensamor
moeda de ouro em minha palma
sem que o perceba o doador.
Como é leve pensamor
ao peito que se abre em palma
para a seta que acertou.
*
SÍNTESE
Apanhei-te em flagrante
ó lógica selvagem.
Tenho-te em mãos pela raiz.
De tuas cores ofuscantes
fiz uma corola nítida
pétala a menos calidez a mais.
*
Henriqueta Lisboa (1901-1985) publicou poesia de 1929 a 1982.
Sua obra apresenta uma transformação semelhante, entre as referências que tenho, à de Vinícius de Moraes: ambos iniciam, nos anos 1930, uma obra de temática espiritualista, diálogo simbolista, em versos longos e livres, poemas longos e ao tom do lamento e da prece — e depois, nos anos 1940, desenvolvem um estilo em versos metrificados, rimas experimentais, poemas curtos, descritivos ou narrativos e, no caso de Henriqueta, tematizando elementos naturais da tradição da poesia.
Lendo a poesia de Henriqueta, autora de alguns incríveis poemas como “As coleções” ou “Tua memória”, selecionei quatro epigramas, que têm na rima o segredo do seu sentido. Amarga : lágrimas, alto : esmalte, raiz : a mais — esses jogos de palavras revelam uma poética das sílabas, que convida o leitor a perceber com olhos e ouvidos a dissonância como um acontecimento da natureza, “pétala a menos” da linguagem. Assim como “trasflor” (termo dicionarizado que motiva o poema-verbete) e “pensamor”, palavras híbridas.
A “lógica selvagem” que, depois, Orides Fontela vai desenvolver também em epigramas da dissonância do mundo e da linguagem, encontra em Henriqueta Lisboa uma expressão singular, numa trajetória de publicação constante e admirável.
