Vivos na memória (2021), de Leyla Perrone-Moisés

Gosto de reverenciar os escritores que persistem, ainda mais aos 85 anos, ainda mais uma professora de literatura.

Vivos na memória é uma espécie curiosa de autobiografia, porque dá a conhecer o temperamento, posicionamentos e um pouco da família de Leyla Perrone-Moisés. Sabemos brevemente de suas filhas, de sua trajetória profissional, de seus livros… Mas tudo isso são notas que aparecem nos retratos dos outros. Escritores “importantes” e pessoas “extraordinárias”, segundo ela.

Em capítulos curtos, à maneira de crônicas, cada figura surge lida e lembrada sob a perspectiva da vida literária: a convivência entre a professora e escritores revela, nos pequenos gestos, a ética, a literatura, essa indecisão. Lembrando de amigas e amigos que hoje são nomes de praças, prêmios ou fundações, a professora publica um testamento crítico que, entre outras coisas, ensina que a literatura não está exatamente em lugar algum, porque, acontecendo no texto, acontece também na textualização dos encontros, como nesse livro (que não é ficção, mas, nem por isso, deixo de nomeá-lo literatura).

Os capítulos para Cortázar e Haroldo de Campos são especialmente bonitos. E os capítulos para Paulo Leminski e Derrida, especialmente estranhos.

Anoto as lições de ética na vida literária, e volto para a minha biblioteca sabendo que o tempo dos grandes homens extraordinários mudou, as perspectivas de classe social, racialidade e institucionalidade (a história da ligação para Fernando Henrique Cardoso autorizar com urgência a vinda de Derrida ao Brasil, que estava impedido de embarcar, é significativa) organizam uma concepção de literatura “alta” (para lembrar um termo caro à professora) que, da sua ponte aérea, observou o que alcançava, uma pequena e ótima parte no turbilhão de publicações, debate e vida literária do Brasil e da França, ou melhor, de São Paulo e de Paris, nos últimos 60 anos.