
De acordo com a Cartilha do participante da redação do Enem, um critério considerado decisivo para a avaliação excelente do texto do estudante é nomeado como “repertório sociocultural”. Elaborar como argumento “uma informação, um fato, uma citação ou uma experiência vivida” consiste, sob a perspectiva da prova do Enem, numa habilidade de produção textual incomum. Assim, argumentar com base em fatos ou informações presentes nos textos de referência da proposta de redação, ou com base em teorias gerais ou narrativas de vida, revela um estudante bem formado no ensino médio, destacado da expectativa geral sobre o estudante brasileiro.
Essa habilidade está incluída na segunda competência de avaliação do texto argumentativo no Enem, que também observa a compreensão da proposta de redação (e, assim, a adequação ao assunto e ao tema propostos) e o desenvolvimento do texto dissertativo-argumentativo em seus elementos discursivos: organização em parágrafos de introdução, desenvolvimento e conclusão, elaboração de tese, desenvolvimento de argumentos e coesão geral das ideias do texto. Por isso, a identificação de “repertório sociocultural” no texto do concluinte do ensino médio representa uma espécie de coroação da habilidade complexa de produção do texto de tipo dissertativo-argumentativo. Daí o interesse na padronização pedagógica desse recurso textual, capaz de proporcionar notas altas e, portanto, publicidade para as empresas privadas e os professores influenciadores que comercializam educação.
A padronização no ensino desse recurso de ouro só é possível porque o sistema de correção da redação do Enem desvaloriza o trabalho de leitura e avaliação realizado pelos professores. Para além das condições de trabalho mal remunerado em ambiente altamente competitivo, o que fragiliza coletivamente os profissionais, os critérios de correção estabelecidos pela banca central de professores privilegiam o uso automático de repertório sociocultural, na contramão da criatividade e da perspectiva crítica. Assim, a Cartilha do participante enumera, entre outros exemplos de uso excelente de repertório cultural, os seguintes:
- Para o filósofo escocês David Hume, a principal característica que difere o ser humano dos outros animais é o poder de seu pensamento, habilidade que o permite ver aquilo que nunca foi visto e ouvir aquilo que nunca foi ouvido.
- Aristóteles, grande pensador da Antiguidade, defendia a importância do conhecimento para a obtenção da plenitude da essência humana. Para o filósofo, sem a cultura e a sabedoria, nada separa a espécie humana do restante dos animais.
- Vê-se, então, o perigo da norma apresentada findar em desuso, sob pena de confirmar o que propunha Dante Alighieri, em “A Divina Comédia”: “As leis existem, mas quem as aplica?”.
Todos os exemplos foram extraídos de dissertações que abordavam o tema da democratização do acesso ao cinema no país. Observa-se, nesses casos, a insistência no cânone europeu da filosofia e da literatura como argumento de autoridade para a formulação de uma ideia geral que não apresenta relação específica com o objeto de análise. Com isso, os adolescentes brasileiros são convidados a escreverem textos com saberes que reproduzem preconceitos metodológicos históricos, como a perspectiva eurocentrada e o suposto saber dessa tradição. Produz-se um ciclo vicioso no qual os jovens no ensino médio são treinados a memorizar fórmulas de conhecimento geral associadas a autorias canônicas como estratégia de elaboração de redação bem avaliada na prova.
A alteração no repertório sociocultural da escola brasileira é um dos caminhos de enfrentamento desse problema, que, no entanto, atua apenas na superfície. É preciso considerar um ensino médio para além do Enem que convide à autoria, e um Enem para além da nota 1.000 que se interesse pela escuta dos adolescentes. O efeito das milhões de ideias veiculadas ano a ano por gerações de jovens nessas redações é a comercialização da nota 1.000, sem que tenhamos acesso público aos arquivos desses textos. Sem considerar um horizonte em que o vestibular seja abolido em prol do interesse pessoal do aluno em ingressar na universidade e da elaboração de processos de seleção complexos que incluam a avaliação da trajetória escolar do estudante, a produção textual na escola fica à mercê da privatização da educação e os escritores brasileiros, à mercê da irrelevância.