Em abril desse ano de 2021, um relatório da Receita Federal a respeito dos impostos sobre livros provocou um debate público. O argumento presente no relatório segundo o qual os livros são consumidos principalmente pela população mais rica do país e, por isso, não devem ser isentos de impostos, não apenas pode ser considerado distorção da realidade (segundo o IBGE, 48% dos livros são consumidos pelas pessoas das classes C, D e E), como também pode ser compreendido como governança antidemocrática (o mesmo Ministério da Economia não se interessa em taxar riquezas, por exemplo).
O jornal Folha de S. Paulo convocou leitores para narrar sua relação com os livros como estratégia de intervenção no debate. Assim, convidei uma estudante de ensino médio, que integra a oficina literária que desenvolvo na escola onde trabalho, para participar dessa reportagem. Ela topou, escreveu seu texto, propus uma revisão gramatical e também uma edição do estilo. O texto, escrito sob orientação do professor e assinado pela estudante, foi publicado no site do jornal.
Esse trabalho pedagógico compreende a autoria como produção social e a escola como espaço de pesquisa e produção de conhecimento. Prevê diálogo com instituições sociais (no caso, um jornal de grande circulação), reconhecimento público de autoria na adolescência e na juventude, experiência de inclusão pela produção textual. Entre seus efeitos, legitima para a família e para os amigos o trabalho intelectual, o que é fundamental num país com grande desigualdade educacional, inclusive para a saúde de quem estuda. Por fim, os jornalistas da Folha responsáveis pela reportagem alteraram a ordem dos parágrafos propostos, o que nos fez considerar sobre a importância de começar o relato se apresentando, quando esse texto se dirige a um público amplo.

