Rubem Fonseca foi uma leitura de formação para mim. Li tudo, seu único livro que ainda não tenho comigo é o último, e são tantos. Ele seria o maior escritor da geração posterior a Rosa e Clarice, não fosse a literatura ter mudado sem parar.

Porque houve uma época Rubem Fonseca, e obras como as de Dalton Trevisan (vivo, gigante!), João Antônio, Ricardo Ramos, Luiz Vilela (vivo!), Roberto Drummond, e algumas outras, compõem essa época Rubem Fonseca. Mas veja: todos autores homens, todos autores brancos. (Ana Paula Maia, hoje, recoloca Rubem Fonseca no circuito crítico. E tem Patrícia Melo, ainda.)

Me parece que ainda está por se pensar o papel da misoginia e do racismo no universo ficcional de Rubem Fonseca, no quanto sua ambiguidade crítica se lê como cinismo, ou defesa heroica da arte moderna, modernista.

A sua atuação no IPES, organização ideóloga do golpe civil-mililtar de 1964, também é pouco lembrada mas também pouco detalhada, e é tão reveladora do que fez, e a censusa da própria ditadura a Feliz Ano Novo se tornou uma espécie de demonstração caricata do teor crítico da sua obra.

Houve uma época Rubem Fonseca, mas não houve, no século XX, uma época Carolina Maria de Jesus, que é a nossa, agora.

Por isso, a obra de Rubem Fonseca deve ser revista, incessantemente, em sua grandeza, e nos seus limites. Hoje, desaprendo a lê-lo a cada vez que o leio, e espero reaprender, depois, porque agora tem sido a hora de ler e reler outras obras.

Viva Rubem Fonseca, sua trajetória, o enigma que deixou para a cultura, no risco, na doideira, na revolta sem fim.

Na foto, ele palestra para os trabalhadores na construção do Metrô Rio, em Ipanema, quando fez campanha contra a derrubada das árvores da Praça Nossa Senhora da Paz e promoveu a criação de uma biblioteca para os trabalhadores que atuavam ali na época da construção da estação próxima da sua casa.