
Foi publicado no começo desse ano de 2021 a tradução de Studiolo, reunião de 21 breves comentários de Giorgio Agamben a pinturas ou esculturas da tradição europeia. O lance é que há alguns anos eu havia me deparado com um desses textos. Foi na casa do Beto, o Alberto Pucheu, que me mostrou, na época, um catálogo com obras de Cy Twombly e uma apresentação por Agamben. O texto estava em inglês e era curto, eu era um jovem doutorando em teoria literária e me interessava pelas ideias do filósofo sobre poesia. Traduzi. Embora escrevesse sobre uma escultura, Agamben convocava a obra de Rilke e considerava a escultura uma figuração da “cesura”, tal como esta foi pensada por Hölderlin. Ou seja, um rolê complexo.
O texto que traduzi do original em inglês se chamou “Beleza cadente“, diferentemente da tradução do original italiano por Vinícius Nicastro Honesko: “Beleza que cai”. Gosto do traço celestial no termo “cadente”, mas gosto também do traço coloquial no termo “que cai”. Na verdade, a questão que atravessa a categoria da “beleza cadente” não é supralunar, mas botânica. Os versos de Rilke evocados por Cy Twombly na sua escultura e analisados por Agamben no seu ensaio citam o “amento” nas plantas. Aprendi essa palavra ao traduzir, em 2013, esse texto e nunca esqueci: ela se refere a ramos inflorescentes em geral pendentes nas plantas. Nas Elegias de Duíno, de Rilke, o amento aparece como símbolo despertado pelos mortos. Uma flor que cai, uma flor cadente.
Na tradução de Dora Ferreira da Silva para os versos do poeta alemão, nos espantamos, na “ventura” ou na felicidade, com o sentimento de “ternura imensa, quase perturbadora, quando uma coisa feliz cai”. Fiz dessa imagem, na época, tema do projeto de pesquisa para ingressar no doutorado em teoria literária na UFRJ: o poema como uma coisa feliz que, verso a verso, cai. Lembro das críticas ferozes que recebi da banca, hoje parecem ter sido endereçadas não a mim, mas às próprias avaliadoras, aos professores em disputa num ambiente de trabalho hostil. Importa que essa imagem ficou em mim como leitor de poesia, e encontra guarida em alguns dos meus alunos, entre os milhares para os quais venho dando aula.
Reencontrei o texto em Studiolo, que Agamben publicou na Itália em 2019, lembrei da tradução, da colaboração de Gabriela Cavalheiro na tradução, daquele ano difícil de 2013, para mim muito difícil, pessoalmente, e também exigente nas nossas mobilizações de luta. A defesa da Aldeia Maracanã, as jornadas de junho. Para o filósofo, a beleza cadente é traço do poema. Espécie de falha na realidade, ela aparece como obra do humano, “limiar entre um fazer e um não-fazer” ou “cesura entre uma ação e uma inação”, a arte em estado de choque. O poema é a chance da beleza que cai, da inoperosidade pela qual o gesto político trabalha. Traduzir filosofia, propor certas aulas de literatura, ler alguns romances esquecidos, elaborar um jardim.