Sou professor de gramática. Isso significa que leio os textos dos meus alunos procurando observar como eles organizam as ideias ou imaginam o mundo em frases, parágrafos e textos. Lido, assim, com a gramática aplicada aos textos. E chamo de gramática tanto a norma culta baseada no uso pelas pessoas letradas, quanto as variedades linguísticas usadas pelos meus alunos. Não se trata de ensinar a norma culta em linguagem escrita contra a fala dos adolescentes, mas de propor a responsabilidade nos usos da língua em relação com as identidades linguísticas de cada um.
Volto muito a esse termo, responsabilidade. Meus alunos em geral recebem uma formação cultural acima da média: vivem numa metrópole, estudam numa escola pública de excelência, lidam com expectativas familiares de sucesso profissional. Dessa maneira, aprendem a expressar suas ideias e a imaginar de forma consciente, o que implica se comunicar com desenvoltura em público numa sociedade radicalmente desigual. Usar a língua nesse contexto social, portanto, requer escutar a fala do outro em sua variedade e legitimá-la.
Vou me ater a um exemplo específico. Hoje, lendo o texto de um aluno, percebi a recorrência no uso dos demonstrativos “este” e “esse” de maneira indiscriminada. Ora com “t”, ora com “ss”. Consultei as gramáticas: Ataliba de Castilho, Azeredo, Marcos Bagno e Moura Neves são unânimes em reconhecer a indistinção entre “este” e “esse”, seja em relação à pessoa do discurso, seja em relação à direção do processo de referenciação. Ou seja: enquanto as gramáticas normativas tradicionais associam “este” ou “esse” à segunda ou à terceira pessoa do discurso, a processos de retomada ou antecipação de termos no discurso, as quatro gramáticas consultadas sublinham que essa distinção é livresca, e não real, no português brasileiro, pois não acontece na fala ou na escrita das pessoas letradas em geral.
Por isso, ensinei: nem eu, seu professor, nem a prova do Enem, que formaliza os saberes do ensino médio para quem deseja seguir estudando, vamos considerar essa distinção. Caso você, estudante, tenha aprendido em algum momento a distinção e deseje usá-la, saiba que adotará uma postura reacionária: você está reagindo a uma mudança linguística verificada na fala e na escrita cultas do português brasileiro. Por outro lado, conhecendo essa mudança, você pode atuar numa perspectiva progressista, defendendo a legitimidade da variação das formas na fala e na escrita cotidianas. Trata-se de uma escolha que requer responsabilidade social e ainda demanda algum desafio para o estilo pessoal.
Como escrever? Há quem proponha generalizar o uso de “esse”, como é o caso de Marcos Bagno. Há quem reconheça que “este” funciona como termo demonstrativo de ênfase na fala e na escrita brasileiras. Há quem mantenha, no estilo pessoal, a distinção entre segunda e terceira pessoas, objeto próximo ou distante, termo anafórico ou catafórico, postura muitas vezes adotada por escritores e professores. Em qualquer dos casos, o estilo pessoal implica a responsabilidade social, e nesse caso prefiro trabalhar na contramão da desigualdade entre as gramáticas praticadas no Brasil.
