Um dos principais desafios ao trabalhar literatura no ensino médio é refletir sobre o que significa estudar a literatura de outras épocas durante a adolescência. Pra que ler “esses livros antigos”, os livros dos nossos tataravós? Lembro de uma professora que elaborou um refrão para as aulas: “Que tempo? Que tempo?” Para além de definir o tempo, gosto de pensar na chance de narrar a cultura. Um adulto que pode narrar a cultura também pode localizar tradições. Em 2019, traduzi junto com uma amiga, Rayi Kena, esse fragmento de George Didi-Huberman para estudantes do ensino médio.

O passado passa mal, na maior parte do tempo. Cada vez que ele tem dificuldade [il a du mal] de passar – na nossa língua como nas nossas imagens, na nossa história como nas nossas memórias, na nossa ideia de política como nas nossas práticas poéticas – ele se entala em nossa garganta e sutura nossas pálpebras. O passado mal passado, o passado mal visto, se torna então a condição penosa da nossa cegueira quanto ao presente, esse estado sempre problemático onde nós nos debatemos entre o enigma das causas e o mistério das consequências. O passado mal dito proporciona também a melhor maneira de permanecer num estado de mutismo ou de cegueira quanto ao nosso futuro: cegueira quanto aos nossos próprios desejos. Nossos desejos não exigem ganhar forma? E a forma, porque ela se transforma sempre em outra, não é indissociável de toda a memória das formas?

Há os poetas, os historiadores, os filósofos, os artistas, que fazem o esforço [de faire acte] do olhar e da fala para que o passado passe de verdade, para que ele possa, a cada vez, nos alcançar e nos deixar. Para que a cegueira do presente cesse um pouco. Eles inventam as formas para resistir à indiferença e à falsa normalidade do tempo que “não faz outra coisa que passar”. Eles trabalham para contestar também os falsos “acontecimentos” que nossa sociedade festeja e neles se embriaga para esquecer. Seria necessário então, a cada vez, reengajar a história em nossos desejos. Que fazer quanto a isso senão começar por esse ato modesto, citar o passado? Ou, mais exatamente, citar os passados – heterogêneos, ao mesmo tempo próximos e distantes, anacrônicos mas coexistentes – que se enredam ou se entrechocam em cada momento de nossas consciências políticas diante do presente.

Fonte: DIDI-HUBERMAN, Georges. Passés cités par JLG: L’oeil de l’histoire, 5. Paris: Les Éditions de Minuit, 2015.