Esse texto relata os caminhos de uma aula de produção textual que propus em março de 2021 a um estudante da segunda série do ensino médio de uma escola pública do Rio de Janeiro. Ler com cuidado os textos dos nossos alunos é uma prática fundamental do dia a dia escolar, mas é preciso que haja condições de trabalho para realizar isso, o que nem sempre acontece. Atuar no letramento de alguém implica democratizar a cultura letrada: dar a conhecer a tradição instituída e reconhecer os saberes das tradições não-hegemônicas.
Um aluno meu com 16 anos de idade, aprendendo a escrever um texto dissertativo, começou sua redação com a seguinte frase: “As mídias sociais são uma maneira rápida e fácil de levar informações para a população”. Independentemente da argumentação que essa frase inicia, algumas observações de estilo podem ser importantes para aproximar esse trecho do registro formal do português brasileiro e, com isso, elaborar mais explicitamente a argumentação subjacente. Parto de um princípio bakhtiniano, que reconhece na análise estilística um instrumento formador do pensamento de qualquer um.
O primeiro aspecto que reconheci com o estudante foi o emprego de um léxico relativamente culto, pois seu texto usa a expressão “mídias sociais” e os termos “informações” e “população”. Dizer, em vez disso, que “os sites da internet espalham rápido notícias pra todo mundo” seria um equivalente mais coloquial da frase. O esforço pela formalidade da linguagem escrita implica a tentativa de precisar melhor um discurso endereçado ao público leitor. Poderíamos dizer que se trata de uma escrita pública, que lança a autoria no espaço público, mesmo que da sala de aula. Por isso, é importante notar como a sequência “uma maneira rápida e fácil de levar…” apresenta menor formalidade em comparação com o restante da frase e, ao mesmo tempo, menor precisão semântica no contexto. É nesse sentido que se pode propor atividades de reescrita para adequar a formalidade de uma frase, sem que isso signifique o rebuscamento da linguagem: “As mídias sociais são um instrumento rápido e fácil de transmitir informações para a população”.
Ainda assim, a argumentação subjacente da frase, considerando o desdobramento do texto, pode ajudar a refazer os caminhos de escrita. No primeiro parágrafo que escreveu, o estudante defendeu que as redes sociais podem submeter seus usuários à manipulação da informação. Portanto, dois processos estão em jogo na transmissão de informações em redes sociais: a velocidade e a veracidade. Abordando um processo, a frase escrita pelo estudante pode incorporar no estilo o aspecto processual. Sua organização sintática com sujeito (“As mídias sociais”), verbo de ligação no presente (“são”) e predicativo (“uma maneira…”) organiza uma afirmação que pode ser refeita, como num jogo de lego ao qual incorporamos novas peças e, assim, com as peças de um boneco produzimos uma casa. “Graças ao advento das mídias sociais, a informação passou a chegar até as pessoas a uma frequência maior do que com os telejornais”.
Como disse ao meu aluno, ao reescrever não estamos no território do certo ou do errado, mas no espaço social das estratégias de comunicação. São escolhas linguísticas que fazemos e que, por isso, marcam as identidades. Como professor numa escola pública, me sinto responsável por formar os estudantes de acordo com as expectativas sociais que recaem sobre um jovem adulto no mundo do trabalho. No entanto, é mais imprescindível que esse estudante seja autônomo para decidir como escrever e falar, que português usar e criar, com base nos valores e na experiência da vida democrática. Um dos principiais caminhos do letramento envolve cuidar das palavras, da frase e do texto de cada um.