o lula aquece o discurso
dele, tem uma forma de fazer
o discurso crescer, germinando
regando o discurso, ele
começa agradecendo
e saudando, ele traz
os que estão no fundo
à frente, ele está à frente mas
toda hora alguém vem à frente
junto com ele, ele dá as mãos
a quem vem à frente, dá o nome
a quem vem à frente, o companheiro
a companheira, que é aquele que
etimologicamente, divide o pão
com você, estamos juntos à mesa
comungamos, comemos, companheiros
ele vai apresentando um a um
os companheiros, e demora, pode demorar
mais do que o discurso, produzindo
a espera, o que ele vai falar, não importa
até que, como hoje, fala de si, mas já agora
falar de si é falar com a amizade
daqueles que estão juntos à mesa, o discurso
vai fermentando assim, a mesa
fala, e quando vem o clímax, aquela voz-trovão
que falha mas não tarda, então
esse clímax faz a gente chorar, nós
também companheiros, à mesa
que comemos junto, que entramos
na faculdade junto, que votamos junto
que conquistamos emprego junto, que juntos
fomos fazendo crescer a ideia-lula
tem um trabalho manual nesse discurso aí
uma experiência, falar dá trabalho
uma artesania de quem ara a terra
e espera crescer, vai cuidando
do discurso pra ele acontecer, vai brindando
antes de se embriagar, passo a passo
preservando os rituais, o sentido
dos rituais, não tem quem faça isso, é difícil
patrão não faz isso, tem jargão
fala a linguagem dos CEOs, sem experiência
o lula faz isso, ele faz