
Diferentemente dos procedimentos de fragmentação de palavras encontrados em “tensão” (1956), de Augusto de Campos, e “velocidade” (1957), de Ronaldo Azeredo, ou de derivação e composição de palavras encontrados em “terra” (1956), de Décio Pignatari, e “nascemorre” (1958), de Haroldo de Campos, os poemas visuais de Ferreira Gullar apresentam nomes substantivos ou adjetivos inteiros e, em geral, com significação concreta e morfologia primitiva. Pelo menos um desses poemas de Gullar restou inédito tanto na reunião Toda poesia, de 1980, quanto em Poesia completa, teatro e prosa, de 2008. Apesar disso, esse outro poema visual esteve na abertura da I Exposição Neoconcreta, se não exposto, publicado tanto nas páginas do SDJB quanto no catálogo da exposição. Combina quatro palavras, que, numa leitura de cima para baixo, da esquerda para a direita, formam a sequência “pano / verde / campo / vivo”, cuja disposição na página sugere a forma do losango ou o movimento de uma hélice. Os termos descritivos, “campo” e “verde”, estão ordenados de maneira intercalada aos termos metafóricos, “pano” e “vivo”, como num quiasmo, o que indica diferença no procedimento de composição em relação aos poemas visuais concretos, que em geral propõem a abstração progressiva da compreensão durante a leitura: da onomatopeia “VVVVVVVVVV” à palavra “VELOCIDADE”, do termo “terra” às expressões “ara terra”, “rara terra” ou “errar a terra”, do termo lógico “se nasce morre” à formulação neobarroca “re-desnasce desmorre”, da imagem “com som cantem” a seu oposto complementar “sem som tombem”, nos poemas concretos aqui lembrados. O cruzamento entre os quatro termos do poema de Gullar imanta o espaço branco da página entre eles, sobre o qual se projeta o sentido e a “vivência”, para retomar o termo de Theon Spanudis, do “campo verde” como um “pano vivo”.
Trecho do ensaio “Fevereiro de 1957 – Notas para um ou dois poemas de Ferreira Gullar inéditos em livro” publicado na edição 103 da Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras. O poema visual fotografado nesse post se tornou referência gráfica na composição de outro importante poema de Gullar, “Fevereiro de 82”. No ensaio, desenvolvo essa relação.