Nesse mês de janeiro de 2021 foi publicado o primeiro número da Revista Tropel, editada pelo projeto de extensão Pré-vestibular Letras: olhar social integrado e ações de inclusão, da Escola de Letras da UNIRIO.

Entre as mais de 200 páginas da revista, há uma entrevista que concedi ao Daniel Grimoni, e que valeu algumas ideias que eu, na época, em 2019, havia publicado em algum lugar, ou ideias que eu comecei a formular naquela entrevista e se tornaram práticas profissionais.

Selecionei quatro trechos da entrevista para o blog, a entrevista completa está nesse link.

1. Ensino de gramática em diálogo com o Twitter

Esse ano, por exemplo, e desde o ano passado, eu tenho procurado fazer com que o estudo gramatical seja baseado na timeline do Twitter, porque ela me parece um corpus de alta tecnologia sintática.

Como na segunda série do ensino médio a gente estuda morfossintaxe, me parece que ali no Twitter eu encontro frases, principalmente, ou pequenos textos, em que há uma experimentação sintática que dialoga com a coloquialidade e com a experiência linguística da juventude (pelos memes, por inovações lexicais); e ao mesmo tempo, no Twitter, tem textos mais formais, de pessoas públicas, políticos, figuras públicas que estão num registro formal da língua, procurando se adequar à norma-padrão do português brasileiro.

Ali tem as duas coisas, não tem só uma. Então o Twitter tem sido o corpus privilegiado de estudo morfossintático; e assim a gente faz essa passagem, de ler literatura e estudar gramática – são coisas diferentes, embora o texto literário possa trazer à tona questões linguísticas no estilo dos autores; isso sim.

2. Experiência tecnológica e ocupações secundaristas

Até que vieram as ocupações das escolas, e nas ocupações ficou muito claro, pra mim, que a timeline era um espaço de criação da ocupação. Muitas ocupações tinham comissões de trabalho de redes sociais, de comunicação, e elas tinham perfis nas redes sociais, que eram usados não só como divulgação das ocupações, mas pra legitimá-las esteticamente. Paródias, vídeos, jograis, performances filmadas eram postadas como estratégia de defesa, como se fosse uma frente de defesa, como se a poesia estivesse no front das ocupações. E ela não era um a mais das ocupações, ela era um modo de organização delas. Então comecei a perceber como essa subjetividade da timeline participa do processo criativo.

E se eu puder falar mais um aspecto: uma estudante, a Isabella Dias, formulou, na época, a ideia de que as ocupações, segundo ela, seriam uma necessidade geracional, no sentido de que o uso das redes sociais pra pessoas nativas digitais coloca a questão da presença do outro sem mediação tecnológica como um problema. Porque você não pode bloquear o outro estando diante dele, né. Frente a isso, a violência se torna um recurso mais viável, aparentemente, e o trabalho afetivo se torna um trabalho mais evidente, também, para que a violência não ocorra: para que você não precise bloquear o outro quando você não tá mediado por tecnologia na relação com o outro.

Assim, a ocupação seria uma demanda geracional por ser o momento em que a convivência se daria entre os colegas de escola sem mediação tecnológica ou dos professores, ou seja, sem mediação: o momento em que a convivência se daria de fato. Isso tudo me mostrou que o trabalho com a internet e a tecnologia participa do dia a dia da escola. Aí a questão é pensar como ele aconteceria na sala de aula, em que pode acontecer de várias maneiras.

3. Uso de livros de ficção em PDF no ensino médio

Então, olha só que curioso: um dos primeiros trabalhos que eu fiz junto com outros colegas professores aqui na escola, esse ano, foi entrevistar todas as categorias da escola pra perguntar sobre seus hábitos de leitura. E a gente descobriu que nem alunos, nem professores, nem funcionários da escola têm significativamente o hábito de leitura digital. Não falando de notícias, ou de textos argumentativos – e sim de livros de ficção. São exceção entre estudantes adolescentes aqueles que dedicam essa leitura aos PDFs. Assim, se eu penso que o PDF em sala de aula é um modo de trabalhar o texto literário, eu necessariamente penso que esse PDF não tá servindo como uma leitura pessoal do aluno, porque a leitura que ele faz pessoalmente é no livro impresso.

Essa questão tem a ver com uma leitura que a gente fez também esse ano, em sala de aula, do Christoph Türcke, um pensador alemão vivo que tem estudado a questão da atenção na cultura contemporânea. E ele pensa justamente nesse sentido, de que a nossa experiência com a cultura digital é uma experiência de destruição da atenção – é uma experiência de produção do que ele chama de uma “cultura do déficit de atenção”. Ele usa ainda um outro termo, que foi traduzido pelo Eduardo Losso como “fornalha” do déficit de atenção, como se a cultura digital produzisse, pela sua fragmentação, sobretudo, pela sua velocidade, mobilidade etc., uma cultura da ansiedade, que é nociva à concentração duradoura sobre um texto único.

4. Currículo de literatura, ocupações secundaristas e poesia contemporânea

A produção de conhecimento dos alunos eu encaro muito como uma produção curricular. O que eu tô chamando de produção curricular? Eles produzem saberes literários e linguísticos que me extrapolam, que eu não conheço, que eu desconheço.

As ocupações secundaristas – essa é uma coisa que tenho repetido – são, pra mim, a leitura mais rigorosa que eu conheço do que é a poesia contemporânea. Não conheço algum ensaio que tenha me revelado com tanta clareza que as poéticas do texto hoje são profundamente vinculadas à produção paródica, performática e metalinguística, digamos assim, dos textos. Então, quando eu pego a obra, por exemplo, da Marília Garcia, que é uma poeta que eu admiro imensamente, com uma obra que tem feito muita diferença no campo da poesia brasileira hoje; ou quando eu pego a obra da Angélica Freitas, pra ficar em dois nomes de gerações mais recentes que são bem representativos, não só pelo que fizeram, mas também pelo que pessoas mais jovens têm feito, dialogando com elas, com suas obras; eu encontro ali Marília Garcia produzindo vídeo-poemas, performando seus poemas na voz, utilizando uma espécie de cinema mudo, por meio de slides, ao apresentá-los, inserindo performativamente um eu no poema, muito frequentemente dialogando de maneira paródica e irônica com a história da poesia.

Nada muito diferente, do ponto de vista dos procedimentos, dos estudantes nas ocupações produzindo os cantos, fazendo paródias do funk, dançando de maneira performática nas ruas esses cantos e propondo a viralização desses vídeos. Ou seja, a relação que eles estavam propondo com o texto literário ali era uma relação muito mais próxima da obra da Marília Garcia do que aquela que geralmente aparece numa aula sobre Machado de Assis, pensando se Machado de Assis foi ou não um escritor realista. Entende?

Então, é nesse sentido que me refiro aos alunos como produtores do currículo. Eles me ensinam sobre gramática postando no Twitter – de fato é onde eu me atualizo gramaticalmente –, porque ali eu compreendo transformações morfossintáticas que lendo as gramáticas contemporâneas eu ainda não encontro, mas lendo os textos deles eu reconheço. Eles ali estão me propondo currículo, porque me propõem problemas na área de saber em que atuo. E quando eu trago um tuíte feito pelos próprios alunos pra sala de aula, de repente a teoria gramatical que é conhecida por eles não cabe na explicação de uma frase que eles mesmos fizeram, da maneira mais espontânea e banal. O mero fato de eu ter relação por rede social com eles ali, naquele contexto, provoca o currículo. Então, nesse sentido, eles são pesquisadores da língua e da literatura.

Fonte dos fragmentos:

GRIMONI, Daniel. Uma leitura passível de ocupação: Entrevista com Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa. In: Revista Tropel: Pré-vestibular Letras: olhar social integrado e ações de inclusão (UNIRIO), Edição 1, p. 65-76, Rio de Janeiro, jan. 2021.