Desenho de Candido Portinari para O Alienista,
em imagem de divulgação da editora Antofágica

Logo no começo de O Alienista tem uma frase inesquecível, que uma das nossas alunas que está lendo o livro na segunda série do ensino médio destacou.

É uma frase que, talvez, para um leitor adolescente, deixa evidente pela primeira vez a ironia do narrador na construção dos personagens.

É a frase na qual o narrador apresenta os motivos pelos quais o Dr. Simão Bacamarte se casou com D. Evarista. A gente lê: “Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes”.

O médico tinha escolhido a esposa por razões “fisiológicas e anatômicas”. Enuncia-se a lógica do patriarcado (o homem justifica para a família a escolha da mulher como esposa) e a lógica do positivismo científico (se o fim do casamento é a formação da família, logo a produção dos filhos deve ser observada de acordo com a melhora da espécie, sob perspectiva eugenista). E nós rimos dessa caricatura. Rimos de nervoso.

Essa análise, diante de adolescentes, revela não como se deve ler uma frase, mas como se pode ler uma frase: produzindo relações entre texto e cultura. Trata-se de uma leitura sob perspectiva histórica que não basta a si mesma.

Como releitor do texto, considerei estarmos atravessando um lado oposto do problema: durante a pandemia do novo coronavírus, podemos fazer escolhas de acordo com o que preconiza a ciência, a fim de preservar a vida individual e coletiva. Na frase, a perspectiva do médico Simão Bacamarte desumaniza a esposa com base nos conhecimentos científicos da época.

Uma questão aparece, assim, com essa interpretação: como um leigo (o leitor) usa o conhecimento científico depois de ler uma ficção que faz caricatura da ciência?

As diferenças entre a ficção e a realidade movem a leitura, podem apaixonar para além da fantasia de identificação entre leitor e protagonista. Identificar-se com a leitura pode significar o fascínio pelas contradições entre ficção e realidade.

Isso pode significar adolescer: entre a criança e o adulto, a imaginação está em constante teste de realidade.