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Nessa quarentena, em parceria com minha colega de trabalho, professora Cristiane Barbalho, estou investigando como minhas alunas e meus alunos da segunda série do ensino médio leem enquanto a escola suspendeu suas atividades letivas. Entre outras propostas, resolvemos escrever para os estudantes recomendando uma leitura que tenhamos feito nesses últimos três meses de afastamento social. Recomendei, então, o livro de Igiaba Scego, nessa espécie de resenha enviada para as turmas:

No começo de junho, fui ler um livro que eu não tinha exatamente me programado para ler. Às vezes, invento projetos de leitura para mim mesmo. Nem sempre cumpro, mas dessa vez estou conseguindo realizar um deles: ler livros de literaturas africanas traduzidos para o português. Quando estava na graduação, entre 2004 e 2007, estudei literaturas africanas de língua portuguesa, mas nunca tinha parado para ler clássicos africanos em outras línguas, como os do inglês: Tsitsi Dangarembga, Chinua Achebe, Ngugi wa Thiongo’o. Também não tinha lido escritores africanos mais recentes, como Chimamanda Ngozi Adichie. Foi aí que, na segunda semana de junho, topei com o livro de Igiaba Scego (pronuncia-se “Idjiába Chêgo”), Minha casa é onde estou. Topei entre aspas. Eu já tinha comprado o livro no começo do ano, conheci pesquisando autores recentes de literaturas africanas (vocês vão ver o meu engano), estava na fila de leituras. Porém, enquanto estava lendo eu pensei muito em vocês, meus alunos. Por isso, digo que “topei” com esse livro, pois ter pensado nos alunos me fez olhar para ele com outros olhos. OK, mas por que gostei do livro e, além disso, pensei em vocês?

Esse livro curto, que foi publicado no Brasil em 2017, não conta exatamente uma história, narra uma geografia. A cada capítulo, conhecemos um lugar público da cidade de Roma, um teatro, uma praça, uma rua. É um passeio por essa velha cidade que já foi a sede do Império Romano, onde já habitou tanta gente diferente e que guarda boa parte da história da Europa. Acontece que em cada um dos lugares de Roma visitados pelo livro Minha casa é onde estou, Igiaba e sua família viveram cenas inesquecíveis de suas vidas. Mais do que isso, esses lugares de Roma são cenário da vida de uma família de origem somali, na África oriental, que chegou exilada à cidade italiana em 1969, com as memórias e os valores de seu território de origem. É um pequeno livro que traça muitas linhas sobre o mapa da cidade. Igiaba, que escreve em italiano, nasceu em Roma, em 1974 – mulher preta retinta e europeia, revela, com as memórias romanas de sua família, que a África está presente na Europa, que a cidade de Roma é habitada por culturas do mundo, que uma cidade é formada por caminhos que dão em muitos países. Então, eu me enganei no meu objetivo: não li literatura africana, mas, sim, literatura afro-europeia.

Até aí tudo bem. Mas por que exatamente eu pensei em vocês? Tá, conhecer Roma pode ser o de menos (mas não é – você conhece?), e conhecer histórias africanas na cidade de Roma já deixa tudo mais interessante. Só que o jeito como o livro é escrito me pareceu empolgante: o estilo de Igiaba Scego parece uma conversa. Ágil, pop e denso, evoca a música de Chico Buarque e Nat King Cole (você conhece esse cara?), homenageia a grande escritora chicana Gloria Anzaldúa (você sabe o que é chicano?), compara culturas da Somália com culturas europeias (você sabe onde fica a Somália?), num vaivém de referências e memórias que está organizado de acordo com lugares de Roma. Assim, você lê um livro que é complexo naquilo que ele narra, mas o vocabulário e o tom do texto desejam que o leitor goste, ou seja, que seja gostoso de ler.