
Onde há dinheiro, ele falta: a sua condição é, sendo patrimônio de alguém, produzir a pobreza do outro. Objeto impresso de propriedade da União, ele circula e empresta valor às coisas que comemos, moramos ou vestimos, nos empresta alguma possibilidade de sobrevivência, destruindo, por sua mera existência, alguma forma de instituir uma comunidade qualquer. Dinheiro é Deus, e o Estado, seja do jeito que for, trabalha para produzir pobreza. A poesia produz outra forma de objeto impresso: pobre desde sempre. Pobre como a nota de zero real inventada pelo Cildo Meireles, estampando não um animal em extinção da fauna brasileira, como as notas com algum valor real, mas o rosto de um índio, numa face, e o corpo morto de um índio, na outra face da nota sem valor real. Zero real é O real é o real. A sociedade contra o Estado vale zero real, e vale o real. O índio precisa ser pobre ou não será. Pobre como a nota de um imaginário inventada por Pablo Paniágua, cujo valor compra exatamente zero mercadorias e avisa que a imaginação é a miséria do mercado. Ou então que o real do dinheiro é o imaginário do sujeito, e avisa que o real é a miséria de si. A poesia é pobre e o dinheiro é coisa impressa, qual poema imaginar escrever sobre Deus?

Dez escritores não grafaram o poema no dinheiro. É crime, dano qualificado previsto pelo artigo 163 do Código Penal, pena: seis meses a três anos de detenção, e multa. Dez ou onze escritores não escreveram em dinheiro, escola não é museu, por isso, no entanto, algo como arte está por vir. Dez ou onze escritores imaginaram, durante poucos minutos, relações para além do dinheiro, no diáfano de uma lâmina de plástico. Escrever na transparência para não escrever. Escrever na transparência é descobrir que nunca de fato se escreve no papel que se escreve. E assim escrevemos em qualquer lugar, qualquer superfície, há sempre uma transparência entre a letra e a coisa escrita, e a transparência é alguma coisa entre a letra e a coisa escrita, é o que difere a letra tornando-a visível. Foi, por fim, para diferir a letra que outra oficina se fez, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer fome, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer lucro, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer impiechment, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer família, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer pobreza, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer eleição, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer privatização, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer salário, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer inflação, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer demissão, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer gestão, fazendo acontecer a letra onde o capital insiste acontecer.










