
Em maio de 1969, Barthes publicou, no Corriere della Sera, uma lista breve com as suas “Dez razões para escrever”: “não posso dizer por que nem para que se escreve”. Prazer, descentramento, “dom”, reconhecimento, amizade, tarefa (contra)ideológica, injunção de uma distribuição guerreira, fissura do sistema simbólico, sentidos novos, burla do fetiche da Causa. São razões para a imaginação da escrita, em lista para que escrever aconteça a cada vez solicitando o próximo número, imaginando-o. Quantas linhas tem a obra completa de Barthes? Um emaranhado. Alguém, na primeira oficina do ano, disse: me ponho à beira do abismo e depois não sei. Alguém também disse: o limite só se descobre no risco, depois. Daí a riscar o papel, arriscá-lo em lista de razões para escrever, foi ao que os escritores da oficina se lançaram, no começo, na sala de espelhos, com Barthes, Juliana, Mariana, Mel, Danilo, Bruna e Guilherme: um texto coletivo.
n razões pra escrever
para usar o alfabeto
porque não tem como falar
para insultar a realidade
registrar conversas
para desbagunçar minha bagunça e bagunçar logo depois
para propor oficinas
se transpassar
para fugir da realidade e ao mesmo tempo permanecer nela
para banalizar o cotidiano
para fazer do nada alguma coisa