
O trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, por isso nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão. Algo como “um palimpsesto / feito de interfaces”, conforme definiu, em poema, a imagem. Poema e imagem que, aliás, são um a inter-face do outro. Quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível. Estava há anos encantado pela pulsação pulsional da “mão inteligente” e depois de ler “A idade da escrita – poema-ensaio” para o público particular que são os alunos e pronunciar silabadamente que a escrita “é POR CAUSA DOS OUTROS”, que a nossa é “a IDADE DA ESCRAVATURA DA ESCRITA”, que “Ainda não sabemos pensar de outro modo”, pude aprender algo sobre ser a escrita “sinônimo de imagem” e, assim, poder ser a escrita um modo de, “escrevendo imagens”, desescrever o tempo. Foi assim que aprendi que nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois o trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, e por isso quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível.
Foi para aprender a ver a obra invisível de Ana Hatherly que propus aos escritores em oficina, no Colégio, desenharem a escrita e, desenhando-a, escreverem alguma imagem. O desaparecimento biográfico de Ana Hatherly legou, em luto, ali, na cena da oficina, o gesto de sua mão. O tempo foi, talvez, desescrito. Foi, para os escritores em oficina, uma possibilidade de escrever.









