FUGA

Escutei o cometa que canta
(no céu-tela de um sítio da web)
passarinho lançando-se doido
doido e cego de pedra e degelo
uma ilíada doida cantasse
de ninguém nenhum fato ou herói
sem sequer uma fibra cardíaca
cuco-meta esquecido do tempo
em mergulho que o tempo não marca
escutei o cadente tenor
pardal pardo de coma difusa
sabiá todo e só matemática
voo esquivo de pauta compacta
e confusa de teclas que nada
executa e no entanto a matéria
manivelas e cordas inventa
e gargantas e teclas descobre
no infinito do palco mais surdo
sem ouvidos e mouco de espírito
a capela e sem uma palavra
o cometa depara seu canto.

(FERRAZ, Eucanaã. Escuta: poemas. São Paulo: Comapnhia das Letras, 2015.)

Segunda parte do poema "Eis", de 'Escuta: poemas'
Segunda parte do poema “Eis”, de ‘Escuta: poemas’