
Em 2002, Manuel de Freitas. Em 1988, Augusto de Campos. Em 1865, Stéphane Mallarmé. De trás pra frente, ouvir Bach diante do gato à noite, com o poeta português, ler o poema ao som de Bach, sem esperar um poema, um poema que se escreve para nos contar que nem tudo vira livro, que nem tudo se escreve. Ou então, com o poeta brasileiro, evocar Mallarmé ao ouvir, vendo-a, a rima com a TV, os t fazendo as vezes de cruzes em cemitério. Ou então, ainda através de Augusto de Campos em sua tradução de Mallarmé, o poema “Brisa marinha”, do francês, de 1865, o lamento inconsolável do náufrago exaurido pelos livros, invocando ao coração que ouça a canção do mar, seu apelo, seu chamado.
WEINEN, KLAGEN, SORGEN, ZAGEN (BWV 12)
[para o Barnabé, felino]
A carne é triste, mas eu leio pouco,
menos ainda do que o meu gato,
que talvez desculpe um dia
o indemonstrável possessivo
que escrevi sem muita convicção.Pode-se fazer tanta coisa, à noite.
Ouvir por exemplo Bach
— o pai —, tendo por único
cuidado uma atenção distraída
ao gelo que estala no copo
de vidro indonésio. Sim,
não me parece que eu seja,
para já, «politicamente correcto».— Ou experimentar o amor,
de novo e sempre o amor,
com frias e esgotadas lágrimas
de lume. E, se o amor não
vem (acontece), posso ir dizê-lo
a ninguém, à porta de bares sombrios,
sem esperar sequer um poema.Porque nem tudo se escreve,
percebe acordando o gato.
Possa ele também não saber,
neste Inverno, que a carne
é mesmo uma coisa muito triste.
(FREITAS, Manuel de. [sic]. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002)

(CAMPOS, Augusto de. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994.)
BRISA MARINHA
A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar…
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!
(CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; PIGNATARI, Décio. Mallarmé. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.)