A respeito das Cartas portuguesas, o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), numa carta para seu amigo, o enciclopedista Jean d’Alembert (1717-1783), num diálogo iluminista desiluminado, defende a tese de que apenas um homem poderia ter escrito tais cartas. A tradução foi gentilmente feita pelo João Camillo Penna, professor de Teoria Literária da UFRJ:
As mulheres, em geral, não amam nenhuma arte, não conhecem bem nenhuma, e não têm nenhum gênio. Elas podem realizar pequenos trabalhos que requerem apenas leveza de espírito, gosto, graça, às vezes inclusive filosofia e razão. Elas podem adquirir ciência, erudição, talentos, e tudo o que se aprenda com trabalho. Mas esse fogo celeste que aquece e acalenta a alma, esse gênio que consome e devora, essa ardente eloquência, esses transportes sublimes que levam o arrebatamento até o fundo dos corações, faltam sempre nos escritos das mulheres: eles são completamente frios e bonitinhos, como elas; eles poderão ter quanto espírito você quiser, nunca alma; serão cem vezes mais sensatos que apaixonados. Elas não sabem nem descrever nem sentir o amor mesmo. Apenas Safo, que eu saiba, e uma outra merecem ser excetuadas. Eu aposto o mundo inteiro que as Cartas Portuguesas foram escritas por um homem. Ora, onde quer que as mulheres dominem, seu gosto deve também dominar: e é isso o que determina o de nosso século.
