XIV
Enquanto escrevo, o menino me olha
debruçado sobre a mesa.
Quero lhe explicar
por que escrevo
e por que não espero dessas linhas que sejam poemas,
mas um acerto de contas.
E por que, no fim das contas,
essa questão não importa.
Quero dizer-lhe que escrevo para poder tê-lo próximo e não sucumbir
a seu peso
para mantê-lo, ali, teso, em silêncio
para protelar sua presença, sustentar sua mudez sem me jogar da varanda.
Mas ele me vê
e sabe que, no escuro, sustento a alegria vaidosa de escrever uma série de poemas,
– sim, de poemas (não importa que diga o contrário) –
poemas contando suas visitas e o trabalho que elas me dão
ele sabe o absurdo desenfreado dessa atividade, sabe que com a desculpa de tentar nos manter vivos, me prostituo à mais convencional das soluções, ao mais ridículo dos gestos
sabe que a pessoa que sobrevive ao esforço ambíguo de fazer justiça à sua morte pode, simplesmente, não merecer ser salva.
E ele sabe da minha vergonha.
Não. O menino não sabe nada. Jaz mudo, impassível diante dos estertores ainda mais convencionais e ainda mais ridículos dessas linhas.
Sem pergunta ou explicação, sem acerto de contas, sem se importar com a vergonha ou com os motivos,
ele me olha.
Poema do Maurício Chamarelli Gutierrez, publicado no Blog da Confraria.