Agora a ideia era: escrever uma frase cujo sentido se alterasse ao ser escrita à máquina de escrever. Cada verso do poema foi digitado pelo seu autor, que em geral digitava à máquina pela primeira vez. De modo que a força com que a tecla imprime sobre o papel é o traço mais significativo, a meu ver, desse trabalho. Qual a força necessária para se escrever uma palavra? Quantas calorias os dedos gastam para fazer um poema? E se o esforço para escrever uma letra for descomunal, como ficam os romances? No mundo em que as telas sensíveis dos celulares não apresentam resistência ao toque dos dedos, não exigem a aderência da pele, escrever à máquina pode significar escrever pela primeira vez. Pode significar o Ato Zero. Teatro que nunca narra nada, mal chega ao primeiro ato, escrever pode ser a maneira mais difícil de não sair do lugar. Ou a maneira mais fácil de não ganhar dinheiro. Ou o modo mais inútil de falar.
